Risco de cortes de geração preocupa ONS e expõe fragilidade da flexibilidade da matriz elétrica brasileira

Operador alerta para probabilidade de perdas de carga já em 2029 e cobra celeridade na contratação de capacidade adicional

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acendeu um alerta importante sobre a confiabilidade do suprimento de energia no Brasil para os próximos anos. Embora a operação atual seja considerada “administrável”, a entidade responsável pela coordenação da matriz elétrica aponta riscos crescentes de cortes de geração e perda de carga, especialmente diante da falta de recursos flexíveis para acompanhar a expansão das fontes renováveis intermitentes.

Em evento realizado nesta quinta-feira, o diretor de Planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, destacou que o sistema está em um cenário desafiador: “a operação do setor elétrico brasileiro está cada vez mais complexa em função da alta penetração das energias renováveis intermitentes”, disse. Ele acrescentou, no entanto, que o órgão ainda consegue garantir o funcionamento do setor de forma “desotimizada”, ou seja, mantendo a operação, mas com ineficiências.

Cresce o risco de cortes no sistema elétrico

Segundo Zucarato, os riscos de desequilíbrio são cada vez mais expressivos. “Há riscos cada vez maiores de cortes da ordem de vários gigawatts de geração e carga no Brasil, enquanto o governo avança lentamente na contratação de mais capacidade para o sistema elétrico”, afirmou.

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O equilíbrio entre geração e consumo é a base do funcionamento do setor. Sempre que há desbalanço, o ONS precisa reduzir a produção dos geradores ou até mesmo interromper temporariamente o fornecimento a consumidores, medida conhecida como corte de carga.

Um relatório do ONS aponta que, em 2029, a probabilidade de algum tipo de perda de carga por insuficiência de potência chega a 96%. Outro estudo projeta que, em um horizonte de cinco anos, será necessário cortar geração em mais de 80% das horas diurnas, entre 9h e 16h, período em que há forte produção de energia solar, mas também maior risco de excesso de oferta sem flexibilidade suficiente para acomodá-la.

Urgência na contratação de capacidade

A preocupação do ONS se concentra no atraso do leilão de capacidade, instrumento criado justamente para garantir a contratação de usinas capazes de ofertar potência firme ao sistema. O certame está em fase de consulta pública, mas ainda há diversos passos até a sua efetiva realização.

“Preocupa o fato de que ainda há muitos passos para o certame efetivamente se concretizar, enquanto a indústria já começa a sinalizar gargalos para entrega de equipamentos”, alertou Zucarato.

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A demora aumenta a incerteza sobre a disponibilidade de recursos no futuro e pode pressionar os custos da operação do sistema, em especial no período seco, quando a contribuição das hidrelétricas é limitada.

Falta de flexibilidade agrava custos

Outro ponto crítico é a baixa flexibilidade da matriz elétrica brasileira, que ainda depende fortemente de térmicas com lenta rampa de acionamento. “O grau de flexibilidade da matriz elétrica brasileira está aquém do desejável, mas é possível operar a custo de desotimização”, afirmou Zucarato.

Na prática, usinas térmicas que só seriam necessárias no fim da tarde, quando há redução da geração solar, precisam ser ligadas com horas de antecedência, o que implica em custos adicionais e cortes de geração de fontes renováveis.

O ONS vem lançando mão de diferentes manobras para enfrentar a situação, como ajustes operativos hidráulicos e aproveitamento intensivo de ativos existentes. Também têm sido acionadas grandes usinas térmicas a gás natural liquefeito (GNL), que tiveram regras flexibilizadas para permitir despacho fora da exigência contratual de 60 dias de antecedência.

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