Afluências abaixo da média histórica em todos os subsistemas acendem sinal de alerta para gestão hídrica e segurança operativa do SIN
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) estima que os reservatórios das usinas hidrelétricas localizadas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste devem encerrar o mês de agosto com 59,4% da capacidade de armazenamento. O volume representa uma redução de 4,6 pontos percentuais em comparação aos 64% registrados nesta sexta-feira (18) e indica a intensificação de um cenário de seca hidrológica moderada sobre as principais bacias do país.
A estimativa foi divulgada no boletim do Programa Mensal da Operação (PMO) do ONS, que também atualizou as projeções de energia natural afluente (ENA) para o mês de agosto. Os dados indicam que todas as regiões do Brasil deverão registrar chuvas abaixo da média histórica, o que pode afetar a recuperação dos reservatórios e influenciar a estratégia de despacho das usinas nas próximas semanas.
Afluências aquém da média histórica em todos os subsistemas
De acordo com o ONS, a previsão hidrológica para agosto revela um quadro de baixa pluviometria generalizada no país, com destaque para o Nordeste, onde a ENA esperada equivale a apenas 47% da média de longo termo (MLT) para o período.
Nos demais subsistemas, os índices também se situam abaixo da média:
- Sudeste/Centro-Oeste: 76% da MLT
- Sul: 82% da MLT
- Norte: 65% da MLT
Esses números reforçam a preocupação com a disponibilidade hídrica em um período tradicionalmente seco e antecipam desafios para o gerenciamento da matriz elétrica, sobretudo no Sudeste/Centro-Oeste, que abriga os principais reservatórios de regularização do país. A região é responsável por armazenar cerca de 70% da água utilizada para geração de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN).
Perspectiva de retração na carga nacional
Além da situação hidrológica, o boletim do ONS também apresenta uma projeção de leve retração na carga de energia elétrica do SIN, com expectativa de 76.809 megawatts médios (MWmed) em agosto de 2025, o que corresponde a uma queda de 0,6% em relação a agosto de 2024.
Esse comportamento pode ser atribuído a uma combinação de fatores, incluindo:
- Moderação do consumo industrial, em especial em setores eletrointensivos;
- Menor influência de temperaturas extremas;
- Efeitos da geração distribuída fotovoltaica, que seguem reduzindo a carga líquida medida pelo operador.
Ainda assim, o ONS monitora constantemente os fatores que influenciam o comportamento da carga e ressalta que o cenário de médio prazo permanece de crescimento, alinhado à retomada econômica e à expansão da infraestrutura elétrica.
Gestão do sistema exigirá cautela operativa
Diante das previsões de redução no armazenamento de energia hidráulica e do regime de chuvas mais fraco, o ONS poderá adotar uma postura mais conservadora na gestão dos recursos hídricos, com foco em garantir a segurança do suprimento elétrico e a estabilidade operativa do sistema.
A atuação do órgão deverá considerar a utilização coordenada de todas as fontes disponíveis, especialmente em um momento de transição entre o período seco e o início da estação chuvosa, prevista apenas para o final do terceiro trimestre.
Além disso, o cenário hidrológico reforça a importância do monitoramento por parte do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que acompanha mensalmente as condições operativas do sistema e recomenda eventuais ajustes na política de despacho de usinas térmicas ou ações adicionais para assegurar o equilíbrio estrutural do SIN.
Sinal de atenção para o setor e para o mercado
Embora os níveis de armazenamento projetados para agosto ainda estejam em patamares considerados operativamente seguros, o comportamento descendente das afluências e a redução dos volumes nos principais reservatórios devem servir como sinal de atenção ao setor elétrico e aos agentes de mercado.
A continuidade do acompanhamento técnico das condições climáticas e hidrológicas, associada à flexibilidade operativa e à diversidade da matriz elétrica brasileira, será decisiva para garantir a confiabilidade do suprimento e evitar repercussões sobre os custos marginais de operação (CMO) ou impactos sobre o mercado de curto prazo.



