Relatório da AIE projeta leve crescimento da demanda em 2025 e recuo em 2026; produção atinge novo recorde e exportadores sentem impacto de excesso de oferta e incertezas geopolíticas
A demanda global por carvão deve permanecer praticamente estagnada em 2025 e 2026, segundo projeções divulgadas nesta segunda-feira (21/7) pela Agência Internacional de Energia (AIE). Embora o consumo mundial da fonte fóssil tenha atingido um novo recorde em 2024, o relatório Coal Market Update – Mid-Year 2025 mostra que o setor dá sinais de estabilização, com tendências divergentes entre as principais regiões consumidoras.
Em 2024, a demanda global por carvão cresceu 1,5% em relação ao ano anterior, totalizando cerca de 8,8 bilhões de toneladas — impulsionada sobretudo pelo aumento do consumo na China, Índia, Indonésia e outras economias emergentes. A alta compensou as quedas registradas em mercados desenvolvidos, como Europa, América do Norte e nordeste da Ásia.
No entanto, a atualização semestral da AIE revela que, no primeiro semestre de 2025, houve inflexões importantes nas dinâmicas regionais, com destaque para a desaceleração da demanda em China e Índia, reflexo do menor crescimento no consumo de eletricidade e da expansão acelerada das fontes renováveis.
Crescimento contido, pressões estruturais
Apesar da retração parcial em algumas economias, a AIE projeta leve aumento no consumo global em 2025, seguido de uma pequena queda em 2026, o que levaria a demanda a um patamar um pouco inferior ao pico observado em 2024. O cenário reafirma a estimativa apresentada em dezembro no relatório Coal 2024, embora atualizações recentes tenham considerado fatores como o arrefecimento da economia global e a revalorização do carvão nos Estados Unidos como matriz de segurança energética.
“Embora observemos comportamentos distintos entre as regiões no primeiro semestre de 2025, esses movimentos de curto prazo não alteram a tendência estrutural de estabilização da demanda global”, afirmou Keisuke Sadamori, diretor de Mercados de Energia e Segurança da AIE.
“Esperamos que o consumo mundial de carvão se mantenha estável neste e no próximo ano, conforme nossas previsões anteriores. Ainda assim, oscilações regionais continuarão ocorrendo, influenciadas por condições climáticas e pelo ambiente macroeconômico e geopolítico, que permanece altamente incerto. Como nos últimos anos, a China continua sendo o ator central, consumindo quase 30% mais carvão do que o restante do mundo combinado.”
Dinâmicas regionais contrastantes
Em 2025, a demanda por carvão na China deve cair ligeiramente, menos de 1%, acompanhando a expansão das energias solar e eólica no país. Nos Estados Unidos, a expectativa é de alta de 7%, puxada por maior consumo de eletricidade e preços elevados do gás natural. Já na União Europeia, projeta-se queda de cerca de 2%, com a desaceleração da atividade industrial superando o crescimento da geração térmica.
A produção global de carvão, por sua vez, tende a atingir novo recorde este ano, com a China e a Índia ampliando sua capacidade para assegurar o abastecimento doméstico. Contudo, em 2026, o excesso de oferta e a queda nos preços devem provocar retração na produção mundial, pressionando países exportadores.
A Indonésia deve liderar a queda em volume, mas a Rússia tende a enfrentar o maior impacto econômico, com seu carvão sendo negociado a preços baixos em meio às sanções e ao isolamento de mercados ocidentais.
Comércio internacional em retração e queda de preços
Outro dado relevante do relatório é a reversão nos volumes de comércio global de carvão. Após anos de crescimento constante, as trocas internacionais devem recuar em 2025, algo que não ocorria desde a pandemia de Covid-19. Se a tendência continuar em 2026, será a primeira queda consecutiva em duas décadas, indicando enfraquecimento da demanda externa e acúmulo de estoques.
Paralelamente, os preços internacionais do carvão recuaram para os níveis de 2021, o que agrava a situação financeira de mineradoras e exportadores. O relatório destaca que o uso energético segue como principal vetor da demanda, mas a indústria pesada chinesa — especialmente siderúrgica e química — também exerce forte influência sobre as tendências globais.
Com a estabilidade da demanda e o enfraquecimento dos fundamentos econômicos do setor, a AIE reforça a necessidade de acelerar a transição para fontes de menor impacto ambiental, ainda que reconheça o papel do carvão na matriz energética de países emergentes.



