Instalação de data centers e mineração de criptomoedas pressiona consumo paraguaio e pode motivar ampliação estrutural da hidrelétrica pela primeira vez desde 1985
A hidrelétrica de Itaipu poderá passar por sua primeira ampliação estrutural desde o início das operações em 1985. A adição de duas novas turbinas está em estudo, impulsionada pela expectativa de que o Paraguai alcance, até 2035, o uso de 50% da energia a que tem direito pela binacional. A mudança alteraria de forma significativa o atual equilíbrio de fornecimento, no qual o Brasil consome cerca de 70% da energia gerada.
A informação foi confirmada pelo diretor-geral brasileiro de Itaipu, Enio Verri. Segundo ele, o aumento da demanda paraguaia é inevitável. “É inevitável, isso vai ocorrer”, afirmou Verri.
O avanço no consumo está relacionado à instalação de data centers, operações de inteligência artificial e mineração de criptomoedas em território paraguaio — segmentos altamente intensivos em energia elétrica.
Crescimento da demanda no Paraguai acelera debates
De acordo com a Administração Nacional de Eletricidade do Paraguai (Ande), a expectativa é que o país utilize metade da energia de Itaipu até 2035. Em 2024, o Brasil consumia 69% da produção da usina, enquanto o Paraguai ficava com os 31% restantes.
O diretor-técnico paraguaio da hidrelétrica, Hugo Zárate, reforçou esse cenário de crescimento. “Tivemos no ano passado um crescimento superior a 14% no consumo de energia.”
Segundo ele, a escalada no consumo foi impulsionada especialmente pela mineração de criptomoedas e por novos contratos com data centers e operações de IA. Esses investimentos colocam pressão sobre o modelo de partilha de energia e geram a necessidade de estudos sobre a expansão da capacidade instalada da usina.
Possível ampliação: duas turbinas e novos estudos técnicos
Atualmente, Itaipu opera com 20 turbinas de 700 megawatts (MW) cada, totalizando 14 mil MW de potência instalada. A infraestrutura da usina já prevê espaço para mais duas unidades, o que poderia representar uma ampliação de até 10% em número de turbinas.
No entanto, o diretor brasileiro faz ressalvas sobre o ganho efetivo em geração:
“Pode ser para menos, com turbinas menos produtivas, ou para mais, com novas tecnologias que permitam produzir mais com menos recursos”, explicou Verri.
A decisão dependerá de uma série de estudos técnicos, ambientais, sociais e de viabilidade econômica. Verri lembrou que, por se tratar de uma hidrelétrica binacional, qualquer ampliação exigirá consenso entre os governos e parlamentos de Brasil e Paraguai.
Ampliação do reservatório está descartada
Durante as avaliações, surgiu a possibilidade de elevar o nível do reservatório em um metro para ampliar a geração. No entanto, o diretor-geral brasileiro descartou a ideia por seus impactos socioambientais.
“Nós temos comunidades, tem os efeitos sobre a população. Uma coisa é você construir uma usina na ditadura militar. Outra coisa é você construir uma usina agora”, argumentou Verri.
Atualmente, a barragem de Itaipu cobre uma área de 1.350 km² e possui um volume útil de 29 bilhões de metros cúbicos de água.
Investimento depende de viabilidade econômica e financiamento externo
Apesar da sinalização sobre a necessidade da expansão, o projeto ainda não apresenta viabilidade econômica, segundo Verri.“Hoje não viabiliza”, declarou.
Não há prazo definido para o início do projeto, mas o tema segue em discussão interna.“Estamos discutindo só a data em que estaremos maduros o suficiente para esse investimento.”
O financiamento deverá vir de instituições multilaterais e nacionais, como o Banco Mundial e o BNDES. A proposta envolve a amortização por meio de um valor adicional, de pequeno impacto, embutido na tarifa de energia elétrica.
“Valor pequeno, você mantém isso na tarifa como custeio e, com isso, consegue pagar o financiamento das duas usinas”, disse.
Diversificação da matriz brasileira reduz impacto
Mesmo com o avanço paraguaio sobre sua cota energética, Verri minimiza os riscos ao abastecimento do Brasil. Ele lembra que a matriz elétrica brasileira vem se diversificando, com forte expansão da geração eólica e solar, especialmente no Nordeste.
“Estamos crescendo a oferta de intermitente também. Aliás, no Nordeste temos excesso de oferta intermitente. Então, não me parece que seja um grande problema”, avaliou.
Outro fator relevante será a mudança, a partir de 2027, nas regras sobre o destino da energia de Itaipu. Pelo novo entendimento bilateral, cada país poderá dispor livremente de sua parte da produção, inclusive com a possibilidade de comercialização no mercado livre brasileiro ou exportação.
“Cada um pode fazer o que quiser com essa energia no seu país”, afirmou o diretor.
Próximos passos e estratégia bilateral
A expansão de Itaipu ainda se encontra em estágio preliminar. Os próximos passos incluem a conclusão de estudos de impacto ambiental, análises técnicas e econômicas, além da articulação diplomática e legislativa entre os dois países.
Com o crescimento acelerado do consumo paraguaio e a pressão de setores intensivos em energia, como data centers e mineração digital, o tema ganha contornos estratégicos para o futuro da binacional e da segurança energética regional.



