Relatório da consultoria aponta risco sistêmico com crescimento acelerado das fontes renováveis e defasagem da infraestrutura de transmissão; especialistas defendem urgência em políticas de armazenamento e flexibilidade
O Brasil corre o risco de desperdiçar uma parte significativa da energia renovável que está sendo adicionada à sua matriz energética. É o que revela uma nova análise da consultoria internacional Wood Mackenzie, que estima que o curtailment — cortes na geração de usinas solares e eólicas por limitações do sistema elétrico — pode triplicar até 2035, atingindo níveis críticos, especialmente no Nordeste do país.
Segundo o estudo, a taxa média de curtailment no Sistema Interligado Nacional (SIN) pode passar de 2% para 8% nos próximos dez anos, acompanhando uma expansão estimada de 76 GW em capacidade renovável. A tendência é que a região Nordeste, por concentrar a maior parte da geração solar e eólica, enfrente cortes médios de 11%, muito acima das taxas previstas para o Sudeste e Centro-Oeste, ambas em torno de 2%.
Essa escalada preocupa especialistas e operadores do setor, que alertam para o descompasso entre a velocidade da transição energética e a capacidade da infraestrutura elétrica em absorver e distribuir essa energia. Embora haja planos em andamento para ampliar a capacidade de transmissão, inclusive com 11 GW de novas linhas previstas até 2029, a análise da Wood Mackenzie conclui que essas iniciativas não serão suficientes para evitar o aumento dos cortes.
“O sistema elétrico brasileiro não tem conseguido acompanhar a velocidade da expansão das renováveis, sobretudo nos horários de maior geração solar, entre 8h e 17h”, explica Marina Azevedo, analista sênior da Wood Mackenzie.
Risco de apagões e modelo esgotado
A avaliação é compartilhada por agentes do setor. Em entrevista ao Canal Solar durante o Greener Summit 2025, Sumara Tigon, assessora executiva do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), reforçou que o modelo atual de operação do sistema está esgotado.
“O atual modelo não é sustentável e, se nada for feito, nem mesmo a geração centralizada será capaz de dar conta do equilíbrio do sistema”, afirmou.
Sumara também destacou que a questão deixou de ser apenas de confiabilidade da transmissão e passou a ser um problema eminentemente energético, exigindo uma abordagem sistêmica e urgente.
Armazenamento: peça-chave da transição energética
Uma das soluções apontadas no relatório da Wood Mackenzie é o investimento em armazenamento de energia. A consultoria afirma que a adoção de baterias e recursos de flexibilidade, como a resposta da demanda, será essencial para reduzir os curtailments e tornar a operação do sistema mais eficiente e econômica.
“Armazenamento não é mais uma opção. Ele será essencial para transformar energia que hoje seria desperdiçada em receita via arbitragem de preços e serviços de rede”, avalia Fernando Dorand, analista da Wood Mackenzie.
O próprio ONS reconhece a importância dos chamados Recursos Energéticos Distribuídos (REDs). Em seu relatório técnico mais recente, o operador destaca que, sem um marco regulatório mais moderno e maior participação ativa dos agentes distribuídos, o risco de instabilidade e até de apagões se torna mais real.
Um novo desafio para a regulação
O avanço dos curtailments evidencia uma lacuna regulatória que ainda persiste na operação do setor elétrico brasileiro. Os especialistas apontam que, sem ajustes no modelo de remuneração, sinalização de preços e incentivos à flexibilidade, os investimentos em renováveis podem ser comprometidos e, pior, transformar-se em ativos subutilizados.
A modernização da regulação, com o reconhecimento de novas funções para os agentes do mercado — como a atuação de usinas com capacidade de armazenamento, participação ativa da geração distribuída e remuneração por serviços ancilares — é vista como urgente e necessária.
Perspectiva de expansão: oportunidade ou gargalo?
O cenário descrito pela Wood Mackenzie é um alerta, mas também uma oportunidade estratégica para o Brasil liderar a transição energética. Com sua matriz predominantemente renovável, o país tem potencial para se tornar um modelo global de descarbonização — desde que consiga resolver seus gargalos estruturais com agilidade.
A estimativa de 76 GW de novas usinas renováveis até 2035 sinaliza o apetite do mercado e a confiança dos investidores no setor. No entanto, o estudo indica que, sem a devida infraestrutura e sem políticas públicas coordenadas, o Brasil poderá desperdiçar uma parcela considerável dessa energia limpa e perder competitividade em um cenário energético global cada vez mais exigente.



