Itaipu inaugura sistema híbrido de energia solar na Ilha da Trindade e fortalece soberania energética nacional

Projeto reduz em 90% o uso de diesel, promove autonomia energética com fontes renováveis e reforça presença brasileira no Atlântico Sul

A Ilha da Trindade, um dos locais mais remotos, sensíveis e estratégicos do Brasil, entrou definitivamente na era da energia renovável. Localizada a 1.160 quilômetros da costa do Espírito Santo, no meio do Atlântico Sul, a ilha agora conta com um sistema híbrido de geração fotovoltaica, que substitui os antigos geradores a diesel e promove autonomia energética com baixa emissão de carbono. O projeto, inédito em sua escala e complexidade, é fruto da cooperação entre Itaipu Binacional, Itaipu Parquetec e a Marinha do Brasil, por meio da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM).

A instalação faz parte do programa Itaipu Mais que Energia e recebeu investimento de R$ 6,8 milhões. A iniciativa busca reduzir drasticamente a dependência de combustíveis fósseis em regiões remotas e de difícil acesso. O novo sistema, já em operação há pouco mais de um mês, reduziu o uso do gerador a diesel para menos de 2% do tempo, promovendo economia de combustível, diminuição de emissões e maior eficiência logística em um território de alta relevância geopolítica, científica e ambiental para o Brasil.

Transição energética aliada à soberania nacional

A nova estrutura de geração da Ilha da Trindade inclui 480 painéis solares (com potência total de 264 kWp), 48 baterias de lítio (com capacidade de armazenamento de 645 kWh) e um gerador a diesel de reserva. A estimativa é que o consumo de óleo diesel seja reduzido em 90%, passando de 60 mil para 6 mil litros por ano. Com isso, elimina-se a necessidade de transporte contínuo do combustível por meio de longas e dispendiosas viagens marítimas em tambores.

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“Trindade faz parte da Amazônia Azul e cumpre um papel relevante na proteção territorial e no avanço das pesquisas científicas. Reduzir o uso de combustível fóssil nesse território é uma contribuição concreta da Itaipu no contexto da transição energética. A iniciativa, assim como o projeto de Tunuí-Cachoeira, na Amazônia Legal, pode servir de modelo para outras regiões remotas do país”, afirmou Enio Verri, diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional.

A presença permanente da Marinha do Brasil na Ilha da Trindade garante ao país o controle da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) em um raio de 370 quilômetros — área rica em biodiversidade marinha e recursos naturais. Com a nova usina, o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade (POIT), que abriga 36 militares e pesquisadores, ganha em segurança operacional e capacidade de permanência com menor impacto ambiental.

Operação logística complexa e sustentável

A instalação do sistema demandou uma operação logística de alta complexidade, conduzida pela Marinha, com o apoio técnico de Itaipu. Entre 25 de março e 3 de abril de 2025, cerca de 50 toneladas de equipamentos foram transportadas pelo navio NDCC Almirante Saboia, com o apoio de um helicóptero H225M. Foram realizadas 61 manobras verticais (VERTREPs) e 38 pousos diretos na ilha, com destaque para o içamento de grandes componentes diretamente do navio ao solo.

A operação também promoveu a retirada de 10 toneladas de resíduos acumulados, reforçando o compromisso com a sustentabilidade ambiental.

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“Essa remoção só foi possível com o uso de um helicóptero desse porte. A aeronave transportou inclusive um trator, essencial para as atividades logísticas em terra”, explicou o capitão de mar e guerra Allan de Almeida Nunes, comandante do navio.

Segundo o superintendente de Energias Renováveis da Itaipu, Rogério Meneghetti, o sistema foi projetado com alta confiabilidade, prevendo o armazenamento de energia excedente para uso noturno ou em dias nublados. “Em casos excepcionais, o gerador entra em funcionamento para preservar a integridade do sistema. A capacidade das placas equivale ao consumo médio de 200 residências”, afirmou.

Eficiência energética e apoio à ciência

Mais do que uma nova usina, o projeto integra um programa mais amplo de eficiência energética e inovação tecnológica. Entre as melhorias previstas estão:

  • Substituição de chuveiros elétricos por sistemas de aquecimento solar;
  • Implantação de iluminação LED em toda a ilha;
  • Automatização dos sistemas internos de energia, otimizando o consumo e reduzindo perdas.

“A parceria com Itaipu amplia a capacidade de permanência da equipe na ilha com menor impacto ambiental e maior eficiência no uso dos recursos energéticos”, afirmou o capitão de mar e guerra Rogério Rezende de Souza.

A infraestrutura instalada também fortalece a Estação Científica da Ilha da Trindade (ECIT), que já recebeu mais de 1,5 mil pesquisadores. Para o oceanógrafo Guilherme Dutra, do Instituto Trindade, a substituição do diesel é um passo fundamental para garantir a continuidade das pesquisas.

“A ilha está entre as últimas grandes áreas remotas do Atlântico Sul ainda preservadas. Reduzir os impactos é essencial para garantir a continuidade das pesquisas.”

Biodiversidade única e potencial biotecnológico

A Ilha da Trindade abriga uma das maiores áreas de biodiversidade do Atlântico Sul. É o principal ponto de desova da tartaruga-verde no Brasil e o segundo da América do Sul. A fauna e a flora são repletas de espécies endêmicas, como o caranguejo “John”, e formações vegetais raras, como florestas de samambaias gigantes.

“Espécies endêmicas podem produzir compostos inéditos, com potencial para novos medicamentos. A conservação do ambiente é fundamental para a pesquisa científica”, destacou o pesquisador Fernando da Silva de Oliveira, doutor em biotecnologia.

Histórico e perspectivas

O projeto teve início em 2016, com a assinatura de um protocolo de intenções entre Itaipu Binacional, Itaipu Parquetec e SECIRM. Em 2017, uma equipe técnica iniciou o levantamento das demandas energéticas da ilha. O convênio prevê ainda intercâmbio técnico-científico em temas como segurança cibernética, comunicação e estruturas estratégicas, além da geração de energia renovável.

Com a conclusão do sistema, o projeto se consolida como um dos principais marcos da transição energética em regiões remotas do Brasil. Além de reforçar a presença nacional em um território estratégico, a iniciativa demonstra o potencial da energia solar como ferramenta de soberania, desenvolvimento sustentável e apoio à ciência.

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