Acesso à energia cresce no mundo, mas regiões vulneráveis como a África Subsaariana enfrentam retrocessos sem apoio financeiro suficiente; documento pede expansão urgente de investimentos em renováveis descentralizadas
O novo relatório “Acompanhamento do ODS 7: Relatório de Progresso Energético 2025”, publicado por cinco grandes organizações internacionais, entre elas a Agência Internacional de Energia (IEA) e o Banco Mundial, revela avanços importantes no acesso à energia elétrica global, mas reforça o alerta: mais de 666 milhões de pessoas ainda vivem sem eletricidade — a maioria em áreas rurais e vulneráveis de países em desenvolvimento.
De acordo com o relatório, 92% da população mundial já têm acesso à eletricidade, uma evolução relevante desde 2015, quando esse índice era de 87%. No entanto, a taxa atual de crescimento é insuficiente para alcançar o acesso universal até 2030, uma das metas centrais do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 7 (ODS 7).
O documento destaca que o financiamento internacional acessível e direcionado é essencial para garantir que comunidades marginalizadas também participem da transição energética global. “Para fechar as lacunas de acesso e infraestrutura, precisamos fortalecer a cooperação internacional para ampliar o financiamento acessível e o capital de impacto para os países menos desenvolvidos e em desenvolvimento”, afirma o relatório.
Energia limpa descentralizada é solução viável para áreas isoladas
As soluções de energia renovável descentralizada — como minirredes solares e sistemas individuais fora da rede (off-grid) — são apontadas como caminho mais rápido, acessível e eficaz para levar energia às populações de difícil acesso. Essas tecnologias já vêm sendo adotadas com sucesso em países da Ásia e da África, mas a escala ainda é limitada devido à falta de recursos financeiros e infraestrutura.
Além da eletricidade, o relatório também chama a atenção para o uso de combustíveis limpos para cozinhar, outro desafio crítico. Hoje, cerca de 2,1 bilhões de pessoas ainda dependem de lenha, carvão e outras fontes poluentes. A poluição gerada por esses combustíveis causa impactos severos à saúde, como doenças respiratórias, e afeta especialmente mulheres e crianças em comunidades rurais.
Disparidades regionais se aprofundam
O levantamento mostra que a África Subsaariana concentra 85% da população sem acesso à eletricidade. A capacidade instalada de fontes renováveis na região é de apenas 40 watts per capita, muito abaixo dos 1.100 watts registrados nos países desenvolvidos. Mesmo com uma leve expansão em 2023, a infraestrutura de energia na região ainda é frágil e dependente de investimentos externos.
No setor de cozinha limpa, o número de pessoas sem acesso cresce a uma taxa de 14 milhões por ano na mesma região. E mesmo com o aumento global de 64% para 74% no acesso a combustíveis limpos desde 2015, as metas globais estão distantes: a estimativa é que apenas 78% da população mundial terão acesso a tecnologias de cozinha limpa até 2030, se as tendências atuais continuarem.
Avanços financeiros e gargalos persistentes
Em 2023, os fluxos financeiros internacionais para energia limpa em países em desenvolvimento cresceram 27%, alcançando US$ 21,6 bilhões — o terceiro ano consecutivo de alta. No entanto, o valor ainda é inferior ao pico de 2016 (US$ 28,4 bilhões) e altamente concentrado em poucos países. Apenas dois países da África Subsaariana figuram entre os cinco principais beneficiários.
Do total liberado em 2023, 83% foram em forma de empréstimos, e apenas 9,8% em doações, o que limita a viabilidade de muitos projetos em países de renda baixa. O relatório defende a reforma dos sistemas multilaterais de crédito, mais uso de financiamento concessional, mitigação de riscos, e melhor regulação nacional para atrair investimentos privados.
Cenário global e metas para 2030
- A capacidade instalada de energia renovável per capita nos países em desenvolvimento atingiu 341 watts em 2023, mais que o dobro dos 155 watts de 2015.
- A participação das renováveis no consumo final de energia cresceu para 17,9%.
- A eficiência energética global, medida pela intensidade energética (energia consumida por unidade de PIB), melhorou 2,1% em 2022, mas ainda abaixo dos 4% anuais necessários para atingir a meta do ODS 7.3.
O relatório será apresentado em 16 de julho de 2025, durante o Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável, na sede da ONU, em Nova York.



