Setor agro responde por 60% da energia renovável do país, impulsionando indústrias e transportes, e se torna peça-chave na descarbonização da economia brasileira
O agronegócio brasileiro, tradicionalmente reconhecido como um dos motores econômicos do país, agora também se consolida como protagonista na geração de energia renovável. É o que revela o estudo inédito “Dinâmicas de Demanda e Oferta de Energia pelo Agronegócio”, produzido pelo Observatório de Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Segundo o levantamento, o setor agropecuário é responsável por aproximadamente 29% de toda a energia consumida no Brasil, e, quando se observa apenas as fontes renováveis, sua participação salta para expressivos 60%, tornando-se pilar central da transição energética nacional.
O resultado não surpreende os especialistas do setor, mas dimensiona, de forma inédita, o papel do agronegócio na sustentabilidade energética do país. Mais do que fornecedor de alimentos e commodities, o agro brasileiro se consolida como gerador estratégico de energia limpa, contribuindo diretamente para que a matriz energética nacional permaneça entre as mais renováveis do mundo.
“Esse protagonismo não se restringe à quantidade de energia limpa ofertada no país ou à presença dos biocombustíveis no setor de transporte — ele também se reflete nos destinos da bioenergia do agro, que se coloca como principal origem da matriz energética de vários setores industriais”, explica Luciano Rodrigues, coordenador do Núcleo de Bioenergia do Observatório de Bioeconomia da FGV.
A bioenergia do agro movimenta a indústria e os transportes
Os dados do estudo são contundentes. Setores como alimentos e bebidas, papel e celulose, cerâmica e ferroligas já têm, em sua matriz energética, mais de 70% provenientes de biomassa agropecuária.
O setor industrial, historicamente, é o maior consumidor da bioenergia do agro, absorvendo aproximadamente 50% da oferta total dessas fontes nas últimas décadas. A biomassa sólida, como lenha e carvão vegetal, bem como subprodutos industriais — como a lixívia da indústria de papel e celulose —, são fundamentais nos processos térmicos industriais.
Nos transportes, o impacto também é expressivo. O etanol da cana-de-açúcar e o biodiesel da soja são pilares da matriz energética do setor no Brasil. Esse movimento começou na década de 1980, com o Proálcool, e ganhou força nos anos 2000 com o advento dos veículos flex e o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB).
O setor de energia, que inclui autoprodução e cogeração elétrica e térmica, também se beneficiou da expansão da bioenergia. As usinas sucroenergéticas, por exemplo, se tornaram importantes geradoras de energia elétrica por meio da queima do bagaço da cana-de-açúcar, enquanto a indústria de papel e celulose ampliou a utilização da lixívia em seus processos.
Sem o agro, matriz energética brasileira perderia sua liderança em renováveis
A força da bioenergia vinculada ao agro é tamanha que, segundo o estudo da FGV, sem sua participação, a atual matriz energética brasileira — hoje com 49% de fontes renováveis — despencaria para cerca de 20%, colocando o país próximo da média global, que gira em torno de 15%.
Esse dado reforça não apenas a relevância do agronegócio para a economia, mas também seu papel estratégico na descarbonização do Brasil e no cumprimento das metas climáticas assumidas internacionalmente.
Historicamente, essa trajetória começou com a predominância da lenha e do carvão vegetal nas décadas de 1970 e 1980, mas se transformou com a expansão da produção de etanol, biodiesel e bioeletricidade. A adoção em massa dos veículos flex-fuel, o desenvolvimento da silvicultura energética e a consolidação da cogeração nas indústrias consolidaram essa guinada verde no agro brasileiro.
Intensidade energética: eficiência competitiva, mas desafio no diesel
Sob a ótica da eficiência energética, o Brasil apresenta indicadores favoráveis. Em 2022, o país registrou uma intensidade de uso de energia na agropecuária de 1,9 GJ por mil dólares de valor bruto da produção (GJ/USD1000), muito próximo da média mundial (1,7 GJ/USD1000).
No entanto, persiste um ponto crítico: a alta dependência do diesel nas operações agropecuárias. Cerca de 73% da energia diretamente utilizada no campo em 2022 veio de combustíveis fósseis, principalmente o diesel, o que torna o setor vulnerável a choques externos, como variações no preço do petróleo ou crises geopolíticas.
“O agronegócio no Brasil possui diversas características favoráveis para a utilização de energia limpa em toda sua cadeia produtiva: clima tropical, produção extensiva com menor necessidade de irrigação, elevada produtividade por hectare e tecnologia adaptada às condições do país. No entanto, essa vantagem convive com a vulnerabilidade da dependência do diesel”, alerta Luciano Rodrigues.
Superar essa dependência, segundo os especialistas, é essencial para que o setor avance em sua agenda de sustentabilidade e resiliência energética, integrando ainda mais biocombustíveis, eletrificação e soluções de hidrogênio verde no campo.
Comparação global favorece o Brasil na produção de alimentos
Outro ponto abordado no estudo foi o consumo de energia relacionado à produção de alimentos. O Brasil apresentou uma média de 2,0 GJ por mil dólares de valor da produção, superior à média global (1,7 GJ/USD1000), mas muito inferior a países concorrentes, como a Argentina (8,2 GJ) e Canadá (4,3 GJ).
Esses dados reforçam que o Brasil, além de ser um dos principais fornecedores globais de alimentos, também mantém uma eficiência energética competitiva, o que se traduz em vantagens econômicas e ambientais frente a nações desenvolvidas, especialmente da Europa e América do Norte.
Bioenergia: um pilar da transição energética brasileira
A expansão da bioenergia nas últimas duas décadas não foi um fenômeno isolado, mas resultado de um alinhamento entre políticas públicas, avanço tecnológico e evolução das cadeias produtivas.
Setores industriais de alta intensidade energética — como papel e celulose, cerâmica, alimentos e bebidas — já são majoritariamente abastecidos por biomassa agropecuária. Esse dado tem relevância não apenas econômica, mas também geopolítica, uma vez que o Brasil se posiciona como um dos poucos países do mundo que combina capacidade agrícola, segurança alimentar e matriz energética sustentável.
A expectativa, segundo os especialistas do Observatório de Bioeconomia da FGV, é que o papel do agro na matriz energética nacional se torne ainda mais relevante nas próximas décadas, à medida que avançam as discussões sobre hidrogênio verde, biometano e eletrificação da frota agrícola.
O estudo conclui que políticas públicas que incentivem a expansão da bioenergia e a redução da dependência de fósseis podem gerar efeitos multiplicadores, tanto na economia rural quanto nos setores industriais e logísticos do país.
“A centralidade da bioenergia do agro na matriz brasileira evidencia que qualquer estratégia de transição energética passa, necessariamente, pela valorização do agronegócio como produtor de energia limpa”, finaliza Luciano Rodrigues.



