Avanço da energia solar, fluxo bidirecional de potência e eventos climáticos extremos ampliam a necessidade de automação, digitalização e ferramentas preditivas nas redes de distribuição.
A expansão da micro e minigeração distribuída (MMGD), que ultrapassou 50 GW de capacidade instalada no Brasil, aumenta a complexidade da operação das redes de distribuição e exige mudanças no planejamento das concessionárias. Com a disseminação de sistemas solares conectados às unidades consumidoras, a infraestrutura precisa acomodar fluxos bidirecionais de energia, variações de tensão e novas condições de carregamento.
A adaptação envolve investimentos em automação, sensores, equipamentos de proteção e plataformas digitais capazes de monitorar a rede e responder a falhas com maior rapidez. A necessidade de modernização também se combina com a eletrificação de atividades econômicas e o aumento dos riscos associados a eventos climáticos extremos, que pressionam a continuidade do fornecimento.
Fluxo bidirecional exige mais automação nas redes
Tradicionalmente, as redes de distribuição foram projetadas para transportar energia das subestações até os consumidores. Com a expansão da geração solar distribuída, parte das unidades consumidoras também injeta eletricidade na rede, alterando os fluxos de potência e as condições de operação dos circuitos.
Essa mudança exige maior visibilidade sobre o comportamento da infraestrutura, especialmente em áreas com elevada concentração de sistemas fotovoltaicos. Dependendo das características da rede e do nível de geração, podem surgir desafios relacionados à elevação de tensão, à coordenação da proteção e à capacidade de acomodar a energia produzida localmente.
Entre as tecnologias que podem apoiar essa adaptação estão religadores automáticos, sensores de monitoramento e sistemas integrados de gerenciamento. Esses recursos permitem identificar ocorrências, isolar trechos com falhas e reduzir o tempo de restabelecimento do serviço.
O gerente de Engenharia de Serviços e Sistemas da Eaton Electrical do Brasil, Luciano Lima, avalia que a mudança exige uma abordagem integrada de modernização da infraestrutura: “Estamos diante de uma mudança estrutural no sistema elétrico. A rede de distribuição precisa ser mais inteligente e preparada para lidar com diferentes fontes de geração, novas cargas e consumidores cada vez mais dependentes da disponibilidade de energia. A combinação entre equipamentos de proteção, automação, conectividade e análise de dados é fundamental para aumentar a resiliência e a eficiência da operação”.
Simulação e análise preditiva orientam investimentos
A modernização também passa pelo uso de ferramentas computacionais para simular diferentes condições de operação e identificar vulnerabilidades antes que elas se convertam em falhas. Tempestades, ondas de calor e picos de consumo podem aumentar o estresse sobre transformadores e outros ativos, tornando o planejamento preventivo mais relevante para as distribuidoras.
A simulação de cenários permite avaliar a resposta da rede a diferentes níveis de demanda e geração distribuída, além de apoiar a priorização de reforços e a alocação de recursos em áreas mais vulneráveis. A análise preditiva pode complementar esse processo ao identificar padrões operacionais e antecipar necessidades de manutenção.
Luciano Lima destaca que a expansão física da infraestrutura, isoladamente, não resolve todos os desafios impostos pela mudança no perfil de geração e consumo. Na avaliação do executivo, a capacidade de prever o comportamento da rede deve integrar o planejamento das concessionárias: “Não basta aumentar a capacidade da rede. É preciso entender como ela irá se comportar diante de diferentes condições de operação. A possibilidade de simular cenários, avaliar impactos e planejar intervenções permite que as concessionárias sejam mais eficientes na utilização dos recursos e estejam mais bem preparadas para situações críticas”.
A combinação de automação, digitalização e planejamento baseado em dados pode contribuir para melhorar a confiabilidade do fornecimento. Os resultados, porém, dependem das características de cada área de concessão, da integração entre sistemas e da capacidade das distribuidoras de transformar informações operacionais em decisões de investimento.



