Magda Chambriard justifica cancelamento por antecipação de estoques e monitora desvio de navios de terceiros para o mercado externo; distribuidoras pressionam pela retomada dos certames.
A Petrobras decidiu suspender o leilão de diesel e gasolina previsto para esta semana, em uma manobra estratégica para reavaliar seus estoques após um volume de entregas acima do planejado para março. O movimento ocorre em um momento de estresse na cadeia de suprimentos, onde a estatal tenta equilibrar a alta demanda doméstica com a volatilidade extrema dos preços internacionais do petróleo, impulsionada pelos conflitos no Oriente Médio.
A confirmação da suspensão veio diretamente da presidente da companhia, Magda Chambriard, durante agenda pública no Rio de Janeiro nesta quarta-feira (18). A executiva explicou que a estatal antecipou entre 10% e 15% do volume originalmente programado para distribuição no mês, o que exigiu uma recalibragem imediata na política de comercialização para garantir o abastecimento no curto prazo.
Refino em regime de sobrecarga
O cancelamento dos leilões expõe o regime intensivo ao qual o parque de refino brasileiro está sendo submetido. Com a janela de importação por agentes privados dificultada pelos preços globais elevados, a Petrobras tem assumido o protagonismo do atendimento ao mercado, operando suas unidades em níveis máximos.
Ao detalhar o esforço logístico da companhia para assegurar o suprimento nacional, Magda Chambriard ressaltou a mobilização das frentes operacionais: “Estamos fazendo das tripas coração para conseguir entregar mais combustível aos distribuidores”, afirmou.
A gestora revelou ainda que três unidades de refino da companhia estão operando com Fator de Utilização (FUT) superior a 100%. Esse dado técnico sinaliza que a estatal está explorando o limite da sua capacidade instalada para suprir a demanda interna e evitar desabastecimentos pontuais.
Inteligência competitiva e o desvio de navios
Um dos pontos mais sensíveis da estratégia atual da Petrobras é o monitoramento do fluxo internacional de derivados. A companhia identificou que o Brasil deixou de receber cargas de terceiros que já estavam em rota para portos nacionais, possivelmente atraídas por margens de lucro maiores em outras regiões (arbitragem).
A presidente da companhia detalhou como a área de inteligência da empresa tem acompanhado essas movimentações globais: “A inteligência competitiva da Petrobras monitorou seis navios de terceiros direcionados ao Brasil. Alguns chegaram até perto de portos brasileiros e tiveram os seus destinos desviados, possivelmente, não podemos afirmar, para buscar melhores preços no mercado spot”, disse.
Essa fuga de cargas de importadores privados aumenta a pressão sobre a Petrobras, que mantém cautela sobre repasses de preços domésticos, apesar da duração prolongada do conflito no Oriente Médio.
Mercado e distribuidores em alerta
A reação do setor à suspensão dos leilões foi imediata. Distribuidoras e importadores, preocupados com a previsibilidade do suprimento, já iniciaram movimentos de interlocução junto ao governo federal e à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O receio dos agentes é que a interrupção dos certames gere um vácuo de oferta em um momento de incerteza global.
Enquanto a Petrobras foca na gestão interna de estoques, o mercado aguarda os próximos passos da estatal. A sustentabilidade de operar refinarias acima de 100% da capacidade e a necessidade de reajustes nos preços de balcão são os dois grandes fatores que determinarão a estabilidade do abastecimento nacional nas próximas semanas.


