Reajuste médio nacional é estimado em 7,64%, com distribuidoras projetando altas acima de 12%, segundo a Thymos Energia
As tarifas de energia elétrica devem registrar em 2026 um dos maiores descolamentos em relação à inflação dos últimos anos, pressionando o orçamento de consumidores residenciais e empresariais. Projeções da consultoria Thymos Energia indicam que o reajuste médio das contas de luz no país será de 7,64%, quase o dobro do IPCA esperado para o ano, estimado em 3,99% pelo mercado financeiro, segundo o Boletim Focus do Banco Central.
Em algumas distribuidoras, o aumento pode se aproximar ou até ultrapassar o triplo da inflação. Os maiores reajustes projetados estão na Neoenergia Pernambuco, com alta de 13,12%, na CPFL Paulista, com 12,50%, e na Enel Ceará, com 10,66%. Na outra ponta, a Thymos aponta que as menores variações devem ocorrer na Neoenergia Brasília (-3,73%), na Amazonas Energia (-1,72%) e na Equatorial Piauí (-0,83%).
Pressão estrutural sobre as tarifas
Segundo a Thymos, a trajetória de alta das tarifas reflete um conjunto de fatores estruturais que vêm se acumulando no setor elétrico brasileiro. Entre os principais vetores estão o aumento dos custos de geração, o elevado volume de perdas comerciais, que incluem furtos de energia, e o crescimento contínuo da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), encargo setorial que financia subsídios e é rateado por todos os consumidores.
A combinação desses elementos tem reduzido o espaço para amortecer reajustes, especialmente em um cenário de expansão da demanda e de maior complexidade operacional do sistema. A tendência, avalia a consultoria, é de que a pressão sobre as tarifas se mantenha nos próximos ciclos regulatórios, independentemente do comportamento pontual da inflação.
Geração renovável e limites do sistema
Além do impacto direto sobre as tarifas, a Thymos chama atenção para desafios crescentes relacionados à operação do sistema elétrico, em especial os cortes forçados de geração de fontes renováveis. O avanço acelerado da eólica e da solar, embora estratégico para a transição energética, tem exposto gargalos na infraestrutura de transmissão e na capacidade de absorção da demanda.
A micro e minigeração distribuída, sobretudo com sistemas fotovoltaicos instalados em telhados residenciais e comerciais, atingiu 44 mil MW em 2025, o equivalente a cerca de 17% de toda a potência instalada do país. Esse crescimento, no entanto, ocorre de forma mais rápida do que a expansão das redes, ampliando o risco de desperdício de energia.
Curtailment deixa de ser exceção
O curtailment, termo usado no setor para designar a redução ou interrupção forçada da geração, já alcançou níveis recordes. Em média, os cortes atingiram 24,3% da produção solar e 18,7% da eólica, quando o excesso de oferta ou limitações do sistema impediram o escoamento da energia gerada.
A consultoria projeta que, em 2026, o problema deve se intensificar de forma marginal, mas com impacto relevante sobre a previsibilidade econômica dos projetos.
Para Filipe Soares, diretor da Thymos Energia, o fenômeno deixou de ser pontual e passou a ocupar papel central nas discussões estratégicas do setor. “O curtailment já não pode ser tratado como evento pontual. Ele se tornou central para a previsibilidade do setor”, afirma.
O executivo avalia que a resposta passa, necessariamente, por soluções estruturais. “Soluções como armazenamento de energia e mecanismos econômicos adequados precisam ser aceleradas”, acrescenta o consultor.
Investimentos, regulação e sustentabilidade do setor
Na avaliação da Thymos, o aumento das tarifas e o avanço dos cortes de geração colocam em evidência a necessidade de um novo ciclo de investimentos em transmissão, armazenamento e modernização regulatória. A ausência de mecanismos econômicos mais eficientes para sinalizar escassez, flexibilidade e localização da geração tende a elevar o custo sistêmico e reduzir o apetite de investidores.
O cenário projetado para 2026 indica que a sustentabilidade econômica do setor elétrico brasileiro passa, cada vez mais, por decisões estruturais que vão além do reajuste anual das tarifas, envolvendo planejamento de longo prazo, integração de tecnologias e revisão dos instrumentos de política pública.



