Agência libera retomada de poço exploratório na Margem Equatorial após vazamento de fluido, mas impõe condicionantes técnicas e operacionais à estatal
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) autorizou a Petrobras a retomar a perfuração de um poço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial brasileira. A atividade havia sido interrompida no início de janeiro após a ocorrência de um vazamento de fluido de perfuração durante a operação.
A liberação ocorre após análises técnicas conduzidas pela agência reguladora, que avaliaram as medidas mitigadoras apresentadas pela companhia. Em comunicado oficial, a ANP informou que, a partir do atendimento às exigências estabelecidas, não há impedimentos para a continuidade da perfuração.
“Considerando as análises técnicas realizadas e as medidas mitigadoras propostas pela Petrobras, concluiu-se não haver óbice ao retorno das atividades de perfuração no referido poço, a partir do recebimento deste ofício”, afirmou a ANP.
Apesar da autorização, a agência deixou claro que a retomada só poderá ocorrer mediante o cumprimento integral de uma série de condicionantes operacionais, que incluem ajustes técnicos no sistema de perfuração e novos protocolos de segurança.
Vazamento levou à paralisação das atividades
O trabalho de perfuração havia sido paralisado no dia 6 de janeiro deste ano, após o registro de vazamento de fluido no poço Morpho, localizado no bloco exploratório FZA-M-059, na Bacia da Foz do Amazonas. Segundo a Petrobras, o material envolvido era fluido de perfuração, utilizado para limpar e lubrificar a broca durante a perfuração de poços de petróleo e gás.
Esse tipo de fluido também tem a função de controlar a pressão interna do poço e evitar o colapso das paredes, sendo considerado um insumo essencial para a segurança da operação. A estatal informou, na ocasião, que o composto atende aos limites de toxicidade previstos na legislação, é biodegradável e não oferece riscos ao meio ambiente ou às pessoas.
Ainda assim, o episódio gerou reação imediata de organizações indígenas e ambientalistas, que manifestaram preocupação com possíveis impactos ambientais, especialmente em uma região considerada de elevada sensibilidade ecológica.
Exigências técnicas e reforço na segurança operacional
Como condição para a retomada da perfuração, a ANP determinou a substituição de todos os selos das juntas do riser de perfuração. O riser é um tubo de grande diâmetro que conecta o poço, no fundo do mar, à sonda de perfuração, localizada na superfície.
Essa estrutura funciona como uma extensão temporária do poço, permitindo que a coluna de perfuração alcance o reservatório e que o fluido retorne à sonda. O sistema é considerado crítico para o controle e a segurança da operação.
Além da troca dos selos, a Petrobras terá que apresentar evidências técnicas da substituição em até cinco dias após a instalação da última junta, incluindo uma análise de conformidade da instalação.
Outra exigência envolve a revisão do Plano de Manutenção Preventiva, com redução do intervalo de coleta de dados dos registradores de vibração submarina nos primeiros 60 dias de retomada da operação. A agência também condicionou o uso das juntas reserva do tubo de perfuração ao envio prévio dos respectivos certificados de conformidade, comprovando que os equipamentos foram inspecionados ou reparados conforme as normas aplicáveis.
Em paralelo, a ANP informou que está conduzindo uma auditoria no sistema de gestão de segurança operacional da sonda desde a última segunda-feira (2), reforçando a supervisão sobre os procedimentos adotados pela companhia.
Petrobras reafirma segurança da operação
Ao comunicar oficialmente o vazamento, a Petrobras declarou que “adotou todas as medidas de controle e notificou os órgãos competentes”. A estatal explicou que houve perda de fluido de perfuração em duas linhas auxiliares que conectam a sonda ao poço.
Na ocasião, a empresa também afirmou que “não há problemas com a sonda ou com o poço, que permanecem em total condição de segurança e que a ocorrência também não oferece riscos à segurança da operação de perfuração”.
Procurada para comentar a decisão da ANP sobre a retomada das atividades, a Petrobras não havia se manifestado até o fechamento desta reportagem.
Margem Equatorial e a pressão regulatória
A Bacia da Foz do Amazonas integra a chamada Margem Equatorial, região que vem sendo tratada como uma das principais fronteiras exploratórias do país. A área é estratégica do ponto de vista energético, mas também concentra elevada sensibilidade ambiental e social, o que tem ampliado o escrutínio regulatório sobre os projetos.
No contexto da transição energética e do fortalecimento da agenda ESG, a autorização da ANP evidencia o desafio de equilibrar expansão da atividade exploratória com exigências cada vez mais rigorosas de segurança, transparência e mitigação de riscos ambientais.
Para o setor de óleo e gás, a decisão também sinaliza que a continuidade dos projetos na Margem Equatorial dependerá, cada vez mais, da robustez técnica das operações e da capacidade das empresas de atender aos padrões regulatórios em um ambiente de fiscalização intensificada.



