Estudo técnico recomenda a implantação de um sistema de armazenamento de 100 MW em Cruzeiro do Sul e novos reforços em transmissão em 230 kV como alternativa mais eficiente para reduzir riscos operativos e a dependência de térmicas na região
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apresentou uma recomendação inédita no planejamento do setor elétrico brasileiro ao indicar a adoção de sistemas de armazenamento de energia por baterias com tecnologia grid-forming como elemento central para elevar a confiabilidade do suprimento no estado do Acre. A proposta está detalhada em estudo técnico publicado em 21 de janeiro de 2026 e tem como foco principal o atendimento às cargas dos municípios de Feijó e Cruzeiro do Sul, regiões historicamente marcadas por restrições estruturais de infraestrutura elétrica.
A solução combina, de forma integrada, a implantação de um sistema de armazenamento de energia por baterias (Battery Energy Storage System – BESS) e o reforço da malha de transmissão em 230 kV, estabelecendo um novo paradigma para o uso de tecnologias de armazenamento no planejamento da transmissão brasileira. Segundo a EPE, trata-se da alternativa com melhor desempenho técnico-econômico para garantir segurança elétrica em um sistema isolado, com baixa inércia e ausência de geração centralizada despachável.
BESS de 100 MW como resposta conjuntural para o sistema acreano
No curto e médio prazo, classificado pela EPE como horizonte conjuntural, a principal recomendação é a implantação de um BESS de 100 MW de potência e 200 MWh de capacidade de energia, conectado ao barramento de 69 kV da Subestação Cruzeiro do Sul. A escolha do ponto de conexão é estratégica, pois permite maior efetividade na resposta a contingências e reforça a estabilidade do sistema local.
De acordo com o estudo, a adoção de baterias com tecnologia grid-forming permite que o sistema atue como formador de rede, ou seja, capaz de estabelecer referência de tensão e frequência, além de oferecer serviços ancilares essenciais para a operação segura do sistema elétrico. Essa característica é particularmente relevante em regiões como o Acre, onde não há atualmente geração centralizada despachável suficiente para garantir robustez dinâmica ao sistema.
Na prática, o BESS funcionaria como um “amortecedor” do sistema elétrico, respondendo rapidamente a falhas, oscilações de carga e eventos de perda de suprimento, ampliando significativamente a flexibilidade operativa e a resiliência da rede.
Reforços estruturais em 230 kV integram a estratégia de longo prazo
No horizonte estrutural, a EPE propõe a implantação de novos circuitos de transmissão em 230 kV interligando os municípios de Tucumã, Feijó e Cruzeiro do Sul. O objetivo é promover a harmonização entre as soluções conjunturais, baseadas em armazenamento, e medidas estruturais de expansão da rede.
Um dos pontos técnicos relevantes do estudo é o aproveitamento de estruturas de circuito duplo já existentes em trechos da linha de transmissão Feijó–Cruzeiro do Sul. Essas estruturas estão localizadas em áreas ambientalmente sensíveis, incluindo terras indígenas, o que torna a solução particularmente atrativa do ponto de vista socioambiental, ao reduzir a necessidade de novas faixas de servidão, minimizar impactos e mitigar riscos de licenciamento.
Essa abordagem reforça uma tendência cada vez mais presente no planejamento energético: a busca por soluções que conciliem eficiência técnica, viabilidade econômica e menor impacto ambiental.
Simulações avançadas reforçam robustez técnica da proposta
Outro diferencial do estudo da EPE é a incorporação de ferramentas avançadas de simulação elétrica. As análises foram realizadas não apenas com os programas tradicionais do Cepel, mas também com o uso do software PowerFactory, especialmente na modelagem da operação horária do BESS.
As simulações permitiram avaliar, em detalhe, os ciclos de carga e descarga das baterias, seu comportamento em situações de contingência e a interação dinâmica com a rede elétrica. Esse tipo de modelagem é fundamental para validar a viabilidade técnica de soluções baseadas em armazenamento, sobretudo quando se trata de aplicações críticas como operação formadora de rede.
Segundo a EPE, a integração entre diferentes plataformas de simulação reforça o caráter estratégico das novas ferramentas e aponta para uma evolução metodológica no planejamento da transmissão no Brasil.
Armazenamento como vetor de modernização do setor elétrico
A proposta da EPE vai além de uma solução pontual para o Acre. O estudo estabelece uma referência inédita para a aplicação de sistemas de armazenamento grid-forming no planejamento do sistema elétrico nacional, abrindo caminho para que essa tecnologia passe a ser considerada de forma estrutural em regiões com baixa inércia, alta penetração de renováveis ou restrições de expansão da rede.
Ao reduzir a dependência de geração termelétrica local, historicamente utilizada como solução de confiabilidade em sistemas isolados, a iniciativa também contribui para a descarbonização do setor elétrico e para a redução de custos operacionais no longo prazo.
Na avaliação da EPE, o conjunto de soluções recomendadas fortalece a segurança energética no Acre, melhora a qualidade do atendimento ao consumidor e sinaliza uma mudança relevante no papel do armazenamento no setor elétrico brasileiro, que deixa de ser apenas um recurso complementar e passa a assumir função estrutural na operação e no planejamento da rede.



