Oscilações oceânicas e atmosféricas devem intensificar extremos de calor, frio e irregularidade das chuvas, elevando riscos para geração hidrelétrica, transmissão e abastecimento
Após um 2025 marcado por eventos climáticos extremos distribuídos ao longo de todo o ano, a perspectiva para 2026 é ainda mais desafiadora. A avaliação é da Climatempo, maior empresa de consultoria meteorológica e previsão do tempo da América Latina, que projeta um cenário de elevada instabilidade climática, impulsionado pela atuação simultânea de diferentes fenômenos oceânicos e atmosféricos. Para o setor elétrico, a combinação de calor fora de época, ondas de frio intenso e chuvas irregulares tende a elevar a complexidade do planejamento energético e operacional.
De acordo com a Climatempo, o próximo ano será influenciado por fases alternadas de La Niña, formação de El Niño e outros padrões de variabilidade climática que dificultam previsões de longo prazo. Esse ambiente reforça a necessidade de monitoramento constante e uso intensivo de inteligência climática, especialmente em setores sensíveis como energia, abastecimento de água, logística e infraestrutura.
Para o meteorologista Vinicius Lucyrio, da Climatempo, o cenário de 2026 impõe uma quebra de paradigma no planejamento sazonal. Ele alerta que a baixa previsibilidade de longo prazo exigirá que empresas do setor elétrico abandonem modelos estáticos em favor de um monitoramento dinâmico e preventivo.
“O ano de 2026 será marcado por diversos fenômenos e fatores atmosféricos e oceânicos que trarão oscilações durante os 12 meses, dificultando as previsões de longo prazo e requerendo que governos e empresas trabalhem com monitoramento e informação meteorológica e climática, a fim de reduzir riscos e minimizar impactos”, afirma.
Verão prolongado e ondas de calor recorrentes
Um dos principais pontos de atenção é a persistência de temperaturas elevadas ao longo de todo o ano. O calor intenso observado no verão não deve se limitar a essa estação. A expectativa é de que 2026 fique novamente acima das médias históricas, repetindo, e possivelmente intensificando, a tendência observada nos dois últimos anos.
Lucyrio aponta que a principal marca de 2026 será a ‘gangorra térmica’, um fenômeno que desafia a estabilidade da carga líquida do sistema. Segundo o especialista, a alternância entre ondas de calor e frentes úmidas será a tônica do ano.
“Os períodos quentes tendem a ser bem quentes, e os períodos de veranico irão se alternar com chuvas fortes e queda de temperatura. A previsão é de alternância entre períodos temperaturas mais altas e mais secos, até mesmo com ondas de calor, com períodos mais úmidos, menos quentes e fortes chuvas”, antecipa.
Para o setor, esse comportamento aumenta a volatilidade da carga, com picos de consumo associados ao uso intensivo de sistemas de refrigeração, além de impactos diretos na operação das usinas e na formação de preços no mercado de curto prazo.
Inverno com extremos e calor antecipado na primavera
A segunda metade do outono e o início do inverno, entre maio e começo de julho, também devem registrar extremos climáticos. A previsão indica quedas acentuadas de temperatura no Centro-Sul do País, incluindo São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e todos os estados da região Sul. As temperaturas mais baixas devem persistir até a segunda ou terceira semana de julho.
No entanto, diferentemente de padrões históricos, o frio não tende a se prolongar. A partir da segunda quinzena de julho, o calor volta a ganhar força e deve se estender por toda a primavera. Na prática, o calor avança antes mesmo do encerramento do inverno, encurtando o período de temperaturas amenas e ampliando a pressão sobre o consumo de energia elétrica.
Chuvas irregulares e riscos para os reservatórios
Do ponto de vista hidrológico, o cenário também é de atenção. Os modelos sazonais indicam que, até o fim do verão, as chuvas ocorrerão de forma alternada com ondas de calor, sem a regularidade necessária para recompor plenamente os níveis dos reservatórios. Essa dinâmica afeta diretamente o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, responsável por cerca de 70% da geração hidrelétrica nacional.
Vinicius Lucyrio adverte que o ritmo intermitente de pluviosidade impedirá que o subsistema Sudeste/Centro-Oeste atinja níveis de conforto antes do período seco. “As cotas desse subsistema irão subir gradualmente até o início do inverno, mas não devem atingir a reposição ideal devido à falta de regularidade da chuva”, explica. Ele reforça que o comportamento deve se repetir no Sistema Cantareira, exigindo atenção redobrada à gestão dos recursos hídricos em São Paulo.
No fim do verão e início do outono, existe a possibilidade de um período mais úmido acima da média, associado ao aquecimento do Oceano Pacífico em um cenário de neutralidade climática. Esse intervalo pode contribuir para alguma recuperação dos reservatórios, mas sem garantia de estabilidade ao longo do ano.
Oscilações globais e maior imprevisibilidade operacional
Além do Pacífico, outros padrões atmosféricos ganham relevância em 2026. A Oscilação de Madden-Julian, com maior impacto no período úmido, e a Oscilação Antártica, mais relevante nos meses frios, devem contribuir para a variabilidade climática. Em fase negativa, a Oscilação Antártica facilita a entrada de massas de ar polar no Brasil, provocando ondas de frio e geadas; em fase positiva, tende a manter frentes frias mais ao sul, favorecendo temperaturas acima da média.
Esse conjunto de fatores amplia o grau de incerteza para o setor elétrico, exigindo maior flexibilidade operacional, reforço da transmissão e estratégias mais sofisticadas de gestão de risco climático.
Impactos setoriais e oportunidades indiretas
No segundo semestre, com a formação do El Niño no início do inverno, a tendência é de um período ainda mais conturbado. Agosto pode marcar o início de ondas de calor com temperaturas até 5°C acima da média, que se estendem por setembro e outubro, meses de retorno gradual das chuvas.
Em regiões como o Matopiba, há risco de chuvas fora de época combinadas com calor intenso, o que pode induzir decisões equivocadas no agronegócio.



