Apesar do alívio no fim de 2025, cortes na geração eólica e solar permanecem em patamar elevado e seguem impactando resultados das empresas do setor elétrico
Os cortes na geração de energia renovável, fenômeno conhecido como Curtailment, permaneceram elevados ao longo do quarto trimestre de 2025, apesar de apresentarem uma queda consistente no mês de dezembro. A avaliação consta em análise do BTG Pactual, que aponta que, mesmo com o alívio observado no fim do ano, os níveis de restrição seguem significativamente acima dos registrados em 2024, mantendo pressão direta sobre a geração e os resultados financeiros de companhias listadas do setor elétrico.
O movimento observado ao longo do trimestre reflete, segundo o banco, uma combinação de fatores estruturais e conjunturais do sistema elétrico brasileiro. Após um período de forte pressão sobre a geração renovável entre outubro e novembro, dezembro trouxe um alívio mais claro, embora insuficiente para reverter o cenário de restrições persistentes, especialmente no Nordeste, principal polo de expansão da geração eólica e solar no país.
Quarto trimestre marcado por pressão sobre renováveis
De acordo com o BTG Pactual, o Curtailment médio da geração eólica atingiu 23,8% no quarto trimestre de 2025. O percentual evidencia o nível elevado de cortes enfrentado pelas usinas, principalmente em um período que historicamente combina boa disponibilidade de vento com limitações do sistema elétrico para absorver toda a energia produzida.
Entre as companhias listadas, os impactos foram expressivos e desiguais, refletindo diferenças regionais e de portfólio. A CPFL Energia e a Copel lideraram os cortes, ambas com índices próximos de 37%, seguidas por Equatorial Energia (por meio da Echoenergia), Engie Brasil Energia e Auren Energia, esta última incorporando os ativos da AES Brasil.
Regionalmente, os maiores níveis de Curtailment eólico foram registrados no Rio Grande do Norte, com média de 33,7%, e no Ceará, com 30,5%. Na sequência aparecem Piauí (19,5%) e Paraíba (18,2%). Esses estados concentram parte relevante da capacidade instalada eólica do país e enfrentam restrições associadas à transmissão, ao despacho e à própria lógica de operação do sistema.
Dezembro traz alívio, mas não resolve o problema
Na leitura mensal, dezembro apresentou melhora relevante. O Curtailment eólico recuou para 15,7%, ante 22,5% em novembro e 29,7% em outubro. O movimento indica uma combinação de menor pressão energética e ajustes operacionais que permitiram maior escoamento da geração renovável no fim do ano.
Ainda assim, analistas do BTG destacam que o patamar segue elevado quando comparado aos níveis históricos e aos observados em 2024. Isso reforça a avaliação de que o problema deixou de ser pontual e passou a ter caráter estrutural, exigindo respostas regulatórias e investimentos em infraestrutura para ser mitigado de forma consistente.
Solar também segue sob forte restrição
O cenário para a geração solar não foi substancialmente diferente. No quarto trimestre de 2025, o Curtailment médio do segmento ficou em 24,5%, abaixo do trimestre anterior, mas ainda em nível considerado alto. Entre as empresas mais afetadas estão Alupar, Equatorial Energia (Echoenergia), Auren Energia e Eneva.
Do ponto de vista geográfico, os maiores cortes solares ocorreram em Pernambuco (31,9%), Bahia (30,3%), Piauí (27,4%) e Minas Gerais (25,0%). Assim como na geração eólica, esses estados concentram uma parcela relevante da expansão recente da capacidade solar centralizada, muitas vezes à frente da disponibilidade de infraestrutura de transmissão adequada.
Assim como observado no vento, dezembro foi o mês menos pressionado para a geração solar, com Curtailment médio de 15,9%, frente a 25,0% em novembro e 32,2% em outubro. O padrão reforça a leitura de que o último mês do ano trouxe alívio conjuntural, mas não eliminou as restrições de fundo.
Natureza dos cortes expõe gargalos do sistema
A análise do BTG Pactual aponta que o Curtailment de natureza energética seguiu como o principal fator de cortes no trimestre. Esse tipo de restrição respondeu por 54% das reduções na geração eólica e por 69% na solar, refletindo momentos em que a oferta supera a demanda ou o sistema prioriza outras fontes por critérios operacionais.
Os cortes por confiabilidade ganharam maior relevância na geração eólica, indicando preocupações adicionais com a estabilidade do sistema em determinadas condições. Já os cortes de natureza elétrica permaneceram residuais, o que sugere que, embora haja limitações físicas na rede, o principal desafio está associado à lógica de operação e à falta de flexibilidade do sistema como um todo.
Impactos financeiros e desafios para 2026
Para as empresas do setor elétrico, o Curtailment elevado tem implicações diretas sobre a geração de caixa, a previsibilidade de receitas e a percepção de risco por parte de investidores. Mesmo contratos de longo prazo podem ser impactados quando a energia simplesmente não é despachada, reduzindo a produção efetiva.
O cenário reforça a urgência de medidas estruturais, como a expansão da transmissão, a regulamentação do armazenamento de energia, a modernização dos critérios de despacho e o avanço de mecanismos que permitam maior flexibilidade operacional. Sem esses ajustes, o crescimento acelerado da geração renovável pode continuar esbarrando em limitações sistêmicas.
Apesar do alívio observado em dezembro, o consenso do mercado é que o Curtailment seguirá como um tema central do setor elétrico brasileiro ao longo de 2026, influenciando decisões de investimento, estratégias operacionais e debates regulatórios.



