Por Marcelo Figueiredo, CEO da Fractal Networks
O setor elétrico brasileiro chega ao final de 2025 em meio a uma das maiores transformações de sua história. A abertura do mercado livre, a rápida expansão da geração distribuída, que já ultrapassa 45 GW instalados, segundo dados da ANEEL, e a crescente digitalização das redes trazem novos desafios para a operação do sistema, entre eles a necessidade de integrar recursos energéticos cada vez mais descentralizados, variáveis e dinâmicos.
Neste contexto, a figura do agregador ganha destaque como potencial agente regulatório, capaz de organizar a participação de pequenas usinas, consumidores e dispositivos flexíveis no mercado. Quando combinada a plataformas digitais conhecidas como Virtual Power Plants (VPPs), essa atuação abre espaço para novos mercados de flexibilidade, eficiência e serviços ancilares, fundamentais para a modernização do setor.
O que são agregadores?
Agregadores são agentes que reúnem e coordenam múltiplos recursos energéticos distribuídos (REDs), como geração solar, armazenamento em baterias, veículos elétricos e cargas flexíveis, de forma a operá-los como um portfólio único no mercado.
Essa coordenação permite que pequenos ativos, que isoladamente não teriam escala ou relevância sistêmica, atuem de forma competitiva em serviços de rede, compensando flutuações de geração e demanda.
Em termos práticos, o agregador:
- Monetiza a flexibilidade do consumidor, remunerando-o por reduzir ou deslocar consumo.
- Aumenta a previsibilidade do sistema, integrando geração variável com armazenamento e demanda controlável.
- Habilita novos produtos de energia, como serviços de resposta da demanda, reserva de capacidade e compensação regional.

Virtual Power Plants: a plataforma da agregação
As VPPs (Virtual Power Plants) são o ambiente digital que viabiliza a agregação em larga escala. Utilizando IoT, inteligência artificial e algoritmos de previsão, elas permitem gerenciar milhares de recursos distribuídos como se fossem uma única usina virtual.
Com as VPPs, é possível:
- Integrar renováveis variáveis, como solar e eólica, compensando sua intermitência.
- Reduzir custos de operação do sistema, evitando despacho de usinas mais caras em horários de pico.
- Fornecer serviços ancilares, como regulação de frequência, tensão e reserva rápida.
- Ampliar a participação do consumidor, que passa de agente passivo para parte ativa da rede.
Experiências internacionais
A atuação de agregadores já é realidade em diversos mercados:
- Reino Unido – Projeto LEO (Local Energy Oxfordshire): piloto que testa a integração de recursos energéticos locais em mercados regionais. Consumidores e comunidades são remunerados por ofertar flexibilidade ao sistema, criando um modelo replicável para todo o país.
- Alemanha: referência global em VPPs, com agregadores como a Next Kraftwerke operando milhares de unidades de geração distribuída e armazenamento, totalizando mais de 10 GW de capacidade agregada.
- Estados Unidos: programas de demand response permitem que agregadores ofereçam serviços de capacidade e flexibilidade, especialmente em estados como Califórnia e Nova York, apoiando a integração de renováveis e mitigando crises de confiabilidade.
- Austrália: com forte penetração de solar em telhados, programas de VPPs conectam consumidores residenciais e baterias domésticas, criando soluções de confiabilidade em redes de distribuição.
- Japão: após o desligamento de grande parte das nucleares, agregadores foram incorporados ao mercado para coordenar resposta da demanda e integrar recursos distribuídos em áreas metropolitanas.
Esses exemplos mostram que o agregador é peça central da transição energética global, habilitando mercados de flexibilidade e reduzindo custos sistêmicos.
Potencial para o Brasil
O Brasil reúne condições favoráveis para o desenvolvimento de agregadores e VPPs:
- Expansão da GD: mais de 3,5 milhões de unidades consumidoras já conectadas à rede via geração distribuída.
- Abertura do mercado livre: até 2028, todos os consumidores poderão escolher seu fornecedor, ampliando a competitividade.
- Crescimento de veículos elétricos: cada EV pode se tornar um recurso energético móvel.
- Digitalização crescente: avanços em medição inteligente e plataformas de gestão de energia abrem caminho para novas soluções.
Com isso, agregadores poderiam atuar em três frentes principais:
- Mercado de flexibilidade, oferecendo serviços ao ONS e distribuidoras.
- Novos modelos de negócios, como clubes de energia, assinaturas e integração de veículos elétricos.
- Participação ativa do consumidor, que deixa de ser apenas carga para se tornar também provedor de serviços.
Desafios e barreiras no Brasil
Apesar do potencial, a adoção de agregadores ainda enfrenta obstáculos significativos:
- Ausência de marco regulatório específico que reconheça o agregador como agente do setor.
- Modelo de remuneração das distribuidoras, que ainda depende de volumetria de energia faturada e não valoriza a flexibilidade.
- Tributação complexa, que dificulta a viabilização de modelos de negócios inovadores.
- Infraestrutura digital incipiente, com carência de medidores inteligentes e interoperabilidade de sistemas.
- Baixa cultura de participação ativa do consumidor, que ainda não enxerga sua flexibilidade como um ativo de valor.
Novos mercados habilitados pela agregação
A implementação de agregadores e VPPs pode abrir novos mercados e oportunidades no Brasil, como:
- Serviços ancilares distribuídos, remunerando consumidores por regulação de frequência e reserva.
- Mercados locais de energia, permitindo que comunidades troquem energia e flexibilidade entre si.
- Integração com programas de descarbonização, apoiando metas ESG de empresas e consumidores.
- Produtos financeiros baseados em energia, como derivativos de flexibilidade e seguros de volatilidade de consumo.
Conclusão
Agregadores e VPPs representam um divisor de águas para o setor elétrico brasileiro. Ao permitir a coordenação de milhões de recursos distribuídos, eles podem reduzir custos, aumentar a confiabilidade e democratizar o acesso a novos mercados de energia.
No entanto, para transformar esse potencial em realidade, será necessário avançar na regulação, modernizar as redes e criar incentivos adequados para consumidores e empresas. A experiência internacional mostra que a hora de agir é agora: países que já incorporaram agregadores colhem benefícios em competitividade e estabilidade do sistema.
O futuro do setor elétrico brasileiro pode estar na capacidade de transformar a energia descentralizada em inteligência coletiva. E os agregadores são a chave para essa nova etapa da transição energética.



