Expansão das renováveis expõe gargalo de transmissão e eleva risco de custos ao setor elétrico, alerta especialista

Crescimento acelerado da geração limpa supera capacidade de escoamento da rede e já provoca cortes de produção, aumentando preocupação de investidores com a previsibilidade do sistema

O rápido avanço das fontes renováveis no Brasil, especialmente eólica, solar e híbridas, tem colocado pressão crescente sobre a infraestrutura elétrica e revelado um descompasso estrutural entre a expansão da geração e a capacidade de transmissão do sistema. A avaliação é de Ezequiel Fernandes, diretor comercial da Ludfor, que afirma que o cenário atual já provoca restrições operacionais, pressiona custos e acende um alerta para investidores do setor elétrico.

O especialista aponta que o Brasil vive uma “corrida” entre oferta e escoamento, marcada pelo crescimento expressivo de novos projetos de energia limpa e pela demora na ampliação da rede de transmissão necessária para absorver essa produção. O fenômeno, segundo ele, tem consequências diretas sobre a confiabilidade do suprimento e sobre o equilíbrio tarifário.

Crescimento das renováveis supera expectativas e pressiona infraestrutura

Segundo Fernandes, a velocidade de expansão surpreendeu até agentes experientes do mercado. Em sua análise, o país vive uma transição energética acelerada, impulsionada pelo avanço tecnológico, competitividade das fontes renováveis e aumento da demanda por energia limpa por parte de consumidores e empresas.

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O executivo ressalta que a transformação da matriz energética, embora tenha gerado ganhos importantes, expôs uma defasagem estrutural no sistema elétrico nacional. Ele destacou a velocidade inesperada da transição energética no país.

“Foi uma surpresa para todos o crescimento acelerado da geração a partir de fontes renováveis no Brasil nos últimos anos. Vivemos uma transição energética em que a matriz está cada vez mais limpa e renovável, e esse aumento acelerado trouxe uma defasagem na expansão da infraestrutura elétrica para acompanhar esse movimento”, afirma.

O descompasso entre oferta e escoamento se reflete em episódios já observados em diversas regiões, com destaque para o Nordeste, onde a concentração de parques eólicos e solares cresceu exponencialmente, mas a capacidade de transmissão não acompanhou na mesma proporção.

Cortes de geração revelam limites operacionais do sistema

A consequência direta da saturação da rede tem sido o aumento dos chamados curtailments, cortes ou limitações temporárias da produção para evitar sobrecarga ou colapso da infraestrutura local. Fernandes destaca que o fenômeno, antes pontual, se tornou mais frequente e passou a afetar a viabilidade econômica de projetos.

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Fernandes explica que os cortes ocorrem quando a oferta supera a capacidade de absorção do sistema, seja por redução momentânea da demanda, limitações de transmissão ou questões de confiabilidade da rede.

“Um dos nossos maiores desafios é fazer com que a infraestrutura cresça no mesmo ritmo, garantindo que toda essa energia possa ser transmitida com qualidade e sem restrições”, ressalta.

Os impactos são múltiplos: atrasos em novos investimentos, incerteza sobre o retorno econômico de projetos de geração renovável, custos adicionais para o sistema e maior complexidade para o planejamento energético.

Geração compartilhada ganha relevância e democratiza acesso à energia limpa

Apesar dos desafios, Fernandes destaca um movimento positivo que se consolidou nos últimos anos: o avanço da geração compartilhada, modelo que permite que múltiplas unidades consumidoras, de empresas a grupos de consumidores, utilizem energia proveniente de um mesmo ativo de geração sem investir diretamente na construção da usina.

A modalidade tem sido um dos pilares do crescimento da geração distribuída no país, ao oferecer previsibilidade tarifária, acesso facilitado à energia renovável e redução de riscos para consumidores que desejam um modelo de contratação mais sustentável e eficiente.

Ao comentar o papel da geração compartilhada na expansão das renováveis, o diretor da Ludfor, Ezequiel Fernandes, contextualiza a funcionalidade do modelo. “Ele permite que múltiplas unidades consumidoras, de grandes redes de varejo a indústrias de médio e grande porte, compartilhem um mesmo ativo de geração sem precisar investir diretamente nele.”

Além dos benefícios econômicos, ele reforça o alinhamento do modelo às tendências da transição energética. “Esse modelo oferece previsibilidade financeira e reduz impacto ambiental, alinhado à agenda de transição energética”.

Desafio estratégico: conciliar expansão da geração com capacidade de transmissão

A discussão sobre infraestrutura tem se tornado central no planejamento do setor elétrico e nas decisões de investimento, especialmente diante do volume crescente de projetos renováveis que aguardam pareceres, conexões e leilões de transmissão.

a deficiência histórica na expansão do sistema de transmissão, a concentração de novos parques renováveis em regiões remotas e a premente necessidade de modernização e digitalização da rede. Somam-se a isso o risco de elevação de custos decorrente de restrições operacionais e o cenário de incertezas regulatórias para investidores em um ambiente de alta competição.

O alerta de especialistas como Fernandes reforça que, sem expansão coordenada da infraestrutura de transmissão, o Brasil pode limitar o próprio potencial renovável, um dos mais robustos do mundo.

Perspectivas: necessidade de planejamento integrado e investimentos estruturantes

Para reduzir gargalos e garantir a integração eficiente das renováveis, o setor prevê intensificação de investimentos em linhas de transmissão, modernização da rede e adoção de tecnologias de gestão e armazenamento. A necessidade de coordenação entre políticas públicas, planejamento energético e atuação dos agentes privados torna-se cada vez mais evidente.

A discussão, que já está no centro das pautas técnicas do setor, tende a ganhar força em 2026, especialmente em um cenário de expansão contínua da demanda por energia limpa, descentralização do sistema e avanço regulatório da geração distribuída.

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