Governança climática avança após o Acordo de Paris, mas desafios ainda freiam a transição energética global

Novo relatório internacional destaca avanços na governança e na adoção de tecnologias limpas, mas aponta brechas de implementação e contradições no caso brasileiro

Dez anos após o Acordo de Paris, um novo levantamento global mostra que o tratado foi bem-sucedido em redefinir a forma como os países pensam e executam suas políticas climáticas. No entanto, também revela que ainda há um longo caminho para que a ambição climática se traduza em ações concretas de descarbonização e transformação econômica sustentável.

O relatório Uma Década de Ação Climática Nacional: Balanço e Caminhos Futuros, produzido pela Iniciativa Caminhos para a Descarbonização Profunda (DDP), traça um panorama da evolução das políticas climáticas em 21 países. O estudo evidencia que as evidências científicas passaram a orientar as decisões de governo, que as metas de longo prazo tornaram-se parte das estratégias nacionais, e que novas instituições e mecanismos de participação social fortaleceram a governança climática.

Governança e ciência moldam novas políticas, mas ainda há lacunas estruturais

A pesquisa mostra que, em muitos países, a incorporação de perspectivas científicas e de longo prazo tem gerado políticas mais robustas e coordenadas. O avanço de tecnologias de baixo carbono e de eficiência energética já trouxe reduções expressivas de emissões em setores-chave.

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Contudo, o relatório alerta para falhas estruturais que dificultam o progresso: a desconexão entre planos estratégicos e decisões políticas imediatas, a baixa coordenação entre ministérios e a falta de atenção a políticas sociais e industriais capazes de sustentar uma transição justa.

Como explica Henri Waisman, diretor da Iniciativa DDP, os resultados são expressivos, mas ainda insuficientes frente à urgência climática global. “O Acordo de Paris foi concebido como um catalisador para a ação nacional, e dez anos depois podemos ver os resultados. Os países começaram a reformular sua governança climática, incorporar perspectivas de longo prazo nas políticas públicas e acelerar mudanças tecnológicas. Esse progresso é significativo.”

Ele pondera, no entanto, que o momento exige uma nova fase de ambição. “Mas a lição da última década também é clara: para alcançar os objetivos do Acordo de Paris, a próxima década deve ser de intensificação dos esforços, enfrentamento dos desafios sociais e industriais e garantia de que a ambição seja traduzida em ação efetiva”.

Brasil: liderança em renováveis, mas ainda com contradições estruturais

O relatório dedica uma análise detalhada ao caso brasileiro, destacando tanto avanços notáveis quanto desafios persistentes. Entre 2004 e 2014, o Brasil reduziu suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) de cerca de 3,5 para 1,5 GtCO₂e/ano, impulsionado por políticas de controle do desmatamento. Entretanto, o estudo aponta que entre 2019 e 2022 as emissões voltaram a subir acima de 2 GtCO₂e/ano, principalmente devido ao aumento do desmatamento, e só recentemente voltaram a cair, alcançando 1,7 GtCO₂e/ano em 2025, ainda acima da meta de 1,32 GtCO₂e/ano prevista na NDC brasileira.

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O levantamento ressalta que 70% das emissões nacionais vêm do setor de uso da terra e agricultura, em contraste com o avanço da matriz elétrica, que é uma das mais limpas do mundo, com 88% de participação de fontes renováveis.

Para Emílio Leal de Le Rôvere, do Centro Clima da UFRJ, o principal desafio brasileiro está em equilibrar os interesses econômicos imediatos com uma visão de desenvolvimento verde de longo prazo.

“O principal desafio para o Brasil é superar o conflito entre os ganhos rápidos de curto prazo com a exploração de recursos não renováveis e os benefícios duradouros da construção de uma nova economia verde, fundamentada em atividades como a bioeconomia, que refletem o vasto potencial renovável do país”, destacou. “Para isso, é fundamental não apenas ter uma visão de longo prazo, mas também um roteiro claro para políticas de curto e médio prazo que promovam essa transição de forma coordenada e eficaz.”

Transição energética e governança climática: o papel das políticas integradas

Segundo o relatório, o Plano de Transformação Ecológica, lançado pelo Ministério da Fazenda na COP 29, representa um passo importante na consolidação da visão de longo prazo do país. A iniciativa deverá orientar o planejamento setorial e servir de base para a Estratégia de Longo Prazo para o Desenvolvimento com Baixas Emissões (LT-LEDS).

Ainda assim, o texto ressalta que a integração entre políticas industriais, energéticas e ambientais é crucial para evitar contradições internas. Apesar da rápida expansão das energias solar e eólica, o Brasil enfrenta gargalos na infraestrutura de transmissão e no armazenamento, que limitam a capacidade de inserção de novas fontes limpas.

Ao mesmo tempo, o combate ao desmatamento ainda sofre resistência de interesses locais e empresariais, demonstrando que a governança climática requer não apenas planejamento, mas também capacidade de implementação e fiscalização rigorosa.

Cooperação e integração global: lições para a próxima década

O relatório também sublinha a necessidade de fortalecer a coordenação entre governos, empresas, setor financeiro e sociedade civil. Para o diretor executivo do IDDRI, Sébastien Treyer, reconhecer os avanços e as falhas é essencial para acelerar a ação global:

“Este relatório mostra que o Acordo de Paris mudou a forma como os países pensam e agem diante da crise climática. Vemos avanços reais na governança e nas políticas, mas também lacunas persistentes que não podem ser ignoradas. Reconhecer tanto os sucessos quanto os fracassos é essencial: só aprendendo com a última década poderemos criar as condições para uma transição mais rápida, justa e ambiciosa nos próximos anos.”

Entre as prioridades destacadas pela DDP estão o reforço dos processos nacionais participativos, a integração de políticas de curto e longo prazo e a criação de novas formas de cooperação internacional, centradas nas necessidades e capacidades de cada país.

A meta, segundo o relatório, é transformar governança climática em ação concreta, um desafio que marcará os próximos dez anos da política climática global e definirá o futuro da transição energética no Brasil e no mundo.

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