Bilhões desperdiçados em energia revelam falhas de eficiência no Brasil às vésperas da COP30

Estudo da ABESCO aponta perdas de R$ 61,7 bilhões em consumo ocioso de eletricidade; especialistas alertam que o problema está na má gestão e não apenas na geração de energia

Às vésperas da COP30, que será realizada em novembro em Belém (PA), o debate sobre transição energética no Brasil ganha um componente desconfortável: o desperdício. Dados recentes da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (ABESCO) revelam que ineficiências no uso de eletricidade somam R$ 61,7 bilhões ao ano. Esse montante, hoje literalmente “queimado” em consumo ocioso, poderia ser revertido em investimentos, inovação ou ações sociais.

De acordo com o levantamento, setores como pavilhões de eventos e áreas de exposições chegam a registrar perdas superiores a 30% devido a sistemas mantidos ligados fora do horário útil. Em consumidores industriais do grupo A, que concentram grandes operações, os índices de desperdício passam de 45% em períodos sem atividade operacional, evidenciando uma falha estrutural na forma como a energia é gerida no país.

Gestão ineficiente supera desafios de geração

Para especialistas, o problema não está apenas na geração de eletricidade, mas, sobretudo, na falta de inteligência na gestão do consumo. Rodrigo Lagreca, CEO da startup Energia das Coisas, aponta que o simples fato de adotar tecnologias limpas não garante economia se a utilização for inadequada.

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“Não adianta adotar uma tecnologia limpa se a empresa não sabe utilizá-la corretamente. Equipamentos ultrapassados, sistemas de iluminação e climatização acionados sem necessidade e falta de manutenção básica criam um ralo invisível por onde escorre valor que poderia ser investido no crescimento do negócio”, explica Lagreca.

O executivo acrescenta que o desperdício também exerce pressão sobre o Sistema Interligado Nacional (SIN), especialmente em períodos de escassez hídrica. “Quando entramos em bandeira vermelha, há, sim, fatores climáticos, mas também existe uma mea-culpa das empresas e consumidores pelo mau uso da energia”, destaca.

Energia desperdiçada é oportunidade perdida para a sociedade

A ineficiência energética não afeta apenas o caixa das empresas, mas também a equidade social. A socióloga Viviani Bleyer Remor reforça que a energia desperdiçada diariamente poderia ser transformada em benefícios diretos para a comunidade.

“O que é desperdiçado diariamente por empresas poderia iluminar ruas inseguras no entorno, beneficiar comunidades e criar programas de responsabilidade social. A eficiência energética é também uma questão de equidade”, avalia.

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Essa perspectiva amplia o debate para além da sustentabilidade, relacionando eficiência energética a cidadania e bem-estar coletivo.

Desperdício ameaça metas climáticas e ESG

Com a agenda climática no centro das discussões globais, a COP30 pressiona governos e empresas a acelerarem a descarbonização. Entretanto, como mostram os dados, a transformação depende não apenas de investimentos em geração renovável, mas também de inteligência operacional para reduzir o consumo desnecessário.

A startup Energia das Coisas tem atuado para mudar esse cenário, mapeando gargalos e propondo soluções baseadas em inteligência de dados e automação. Segundo Lagreca, os clientes da empresa chegam a registrar economias entre 30% e 40% apenas com ajustes de uso e desligamentos automáticos de cargas ociosas.

“Estamos falando de ganhos imediatos, que aumentam a competitividade e reduzem riscos de imagem. Uma empresa que desperdiça energia compromete não só sua eficiência financeira, mas sua credibilidade na agenda ESG”, conclui o executivo.

Caminho para a eficiência: da conscientização à ação

Os números revelados pela ABESCO evidenciam que eficiência energética é tanto uma questão ambiental quanto econômica. Reduzir o desperdício não depende apenas de grandes investimentos em novas fontes, mas de mudanças de gestão, atualização de equipamentos e monitoramento constante.

Para as empresas, os benefícios vão além da redução de custos: melhoria da reputação, maior competitividade e alinhamento às exigências ESG. Para a sociedade, significa menor pressão sobre o sistema elétrico, mais recursos para políticas sociais e avanço real na descarbonização.

Com a COP30 como pano de fundo, o Brasil tem uma oportunidade única de mostrar ao mundo que eficiência também é inovação — e que combater o desperdício é tão estratégico quanto investir em energia limpa.

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