Pesquisa do King’s College London revela que painéis solares em órbita poderiam fornecer energia contínua, reduzir custos do sistema em 15% e diminuir a dependência de baterias
A Europa pode estar diante de uma das maiores transformações energéticas de sua história. Pesquisadores do King’s College London publicaram na revista Joule um estudo inédito que mostra o potencial da energia solar espacial (SBSP, na sigla em inglês) para substituir até 80% das fontes renováveis terrestres no continente.
A proposta consiste em instalar painéis solares no espaço, acima da atmosfera, garantindo geração contínua de eletricidade em escala de gigawatts. Essa energia seria então transmitida para estações terrestres, convertida em eletricidade e distribuída pela rede. O modelo, baseado em conceitos desenvolvidos pela Nasa, aponta que o sistema poderia reduzir em até 15% o custo total do sistema energético europeu.
Como funciona a energia solar espacial
Diferentemente da energia solar convencional, dependente da radiação solar durante o dia e vulnerável a condições climáticas, o SBSP opera de forma constante, captando luz solar sem interferências atmosféricas.
O sistema utiliza refletores em órbita para coletar a energia solar. Essa potência é transmitida em forma de micro-ondas ou laser para estações receptoras na Terra, onde é convertida em eletricidade. Na prática, trata-se de um recurso energético centralizado, limpo e ininterrupto, capaz de transformar a matriz energética global.
De acordo com os pesquisadores, o uso da tecnologia poderia também reduzir em dois terços a necessidade de baterias, hoje indispensáveis para equilibrar a intermitência de fontes renováveis, como solar e eólica.
Modelagem do estudo
O trabalho envolveu um modelo computacional detalhado, que abrangeu 33 países europeus. A simulação analisou a demanda, geração e armazenamento de eletricidade, com o objetivo de identificar a opção mais econômica para atender às necessidades do continente.
Ao integrar a energia solar espacial no sistema, os resultados mostraram substituição massiva das renováveis terrestres por essa tecnologia de fornecimento contínuo, o que representa uma mudança estrutural significativa no desenho energético europeu.
Cooperação internacional como diferencial
A Europa é considerada uma região estratégica para adoção da energia solar espacial. Além de enfrentar desafios para expandir fontes renováveis intermitentes, o continente possui uma longa tradição de cooperação multinacional, tanto no intercâmbio de eletricidade entre fronteiras quanto em projetos da Agência Espacial Europeia (ESA).
Essa característica de integração regional pode favorecer a implantação de projetos conjuntos, diluindo custos e riscos tecnológicos e acelerando o uso da tecnologia em escala.
Desafios e horizonte até 2050
Apesar do enorme potencial, a viabilidade econômica do SBSP ainda depende de avanços tecnológicos e redução nos custos de construção, lançamento e manutenção de satélites. Segundo os autores do estudo, a competitividade real só deve ser alcançada por volta de 2050.
Além disso, a modelagem apresentada não considerou desafios específicos do espaço, como congestionamento orbital, interrupções na transmissão de energia ou variabilidade do feixe de micro-ondas/laser, fatores que poderiam afetar a confiabilidade do sistema.
Mesmo assim, especialistas avaliam que o estudo é um marco por oferecer um olhar técnico e quantitativo sobre como a energia solar espacial poderia se integrar ao sistema elétrico europeu.
Um caminho para a descarbonização
O avanço da energia solar espacial é visto como uma das soluções mais promissoras para acelerar a descarbonização da matriz energética global, especialmente em regiões com alta demanda de eletricidade e limitação territorial para novas usinas terrestres.
Se viabilizada, a tecnologia não apenas fortalecerá a segurança energética europeia, mas poderá também se tornar referência para outros continentes, ampliando o papel da energia renovável no combate às mudanças climáticas.



