Estudo da Agência Internacional de Energia mostra que incertezas macroeconômicas e riscos regulatórios ainda limitam investimentos em países em desenvolvimento; Brasil é citado como exceção positiva
Mesmo com o início de um ciclo de redução nas taxas de juros em diversas economias, o custo de capital para projetos de energia limpa em mercados emergentes e economias em desenvolvimento (EMDEs, na sigla em inglês) continua elevado. É o que mostra a nova edição do Observatório de Custo de Capital da Agência Internacional de Energia (AIE), divulgada em 2025.
De acordo com o estudo, o investimento global em energia ultrapassou US$ 3 trilhões em 2024. Contudo, apenas cerca de 25% deste volume foi destinado a EMDEs fora da China, indicando uma retração em termos reais na última década. Esse desequilíbrio está diretamente relacionado ao alto custo de capital enfrentado por esses mercados — frequentemente de duas a três vezes superior ao observado em economias desenvolvidas.
A terceira edição do Observatório aprofunda a análise com dados de mais de 1.700 projetos financiados ou desenvolvidos globalmente, incluindo pela primeira vez projetos de energia hidrelétrica e uma expansão geográfica no Sudeste Asiático, região que deve representar 25% do crescimento da demanda energética na próxima década.
Energia limpa: custo de capital ainda é entrave relevante
Para projetos renováveis e de armazenamento, que exigem investimentos iniciais robustos e baixa manutenção operacional, o custo de capital é fator decisivo. A AIE destaca que os dados sobre esses custos ainda são escassos, defasados e pouco representativos em termos geográficos.
“Os resultados confirmam que o custo de capital para projetos de energia renovável e baterias em EMDEs é pelo menos o dobro do observado em economias avançadas, com variações substanciais entre os países pesquisados”, aponta o relatório. A pesquisa também revela que, em muitos mercados, o custo médio ponderado de capital (WACC) para projetos de baterias em escala é semelhante ao de empreendimentos solares autônomos, especialmente em modelos que associam geração e armazenamento no mesmo local.
“A implantação de baterias no local com energias renováveis pode fornecer energia limpa distribuível, reduzindo a variabilidade na produção renovável e permitindo que os projetos forneçam balanceamento de rede e serviços auxiliares”, afirma o estudo. A prática, segundo desenvolvedores entrevistados, tem se tornado cada vez mais comum para atender à demanda noturna com energia solar armazenada.
Riscos regulatórios e cambiais são principais barreiras
O levantamento da AIE mostra que investidores identificam como principais barreiras à redução do custo de capital os riscos regulatórios, políticos e de bancabilidade. “Os riscos regulatórios, em particular, foram destacados como o risco número um na maioria dos mercados cobertos pela pesquisa”, afirma a agência.
Em países do Sudeste Asiático, os riscos políticos ainda são vistos como os mais relevantes. Já em economias como Brasil e Índia, a percepção é mais positiva, graças a um ambiente regulatório mais estável e apoio político contínuo. “O apoio político forte e sustentado permitiu que estes dois últimos aproveitassem a energia renovável de baixo custo, com as tendências crescentes de investimento nos últimos anos se destacando entre outros EMDE”, complementa a AIE.
Outro obstáculo importante é o risco cambial. Como muitos EMDEs têm sistemas financeiros subdesenvolvidos, acabam dependendo de financiamento externo em moedas fortes, como o dólar americano. “Isso introduz um risco cambial para o desenvolvedor, visto que as receitas de eletricidade serão denominadas em moeda local”, destaca o estudo. Mais de 70% do financiamento mapeado pela AIE foi realizado em moeda local, o que limita o acesso a instrumentos tradicionais de proteção como swaps ou opções, geralmente caros e com oferta limitada.
Perspectivas incertas para 2025
Em 2023, 90% dos entrevistados esperavam aumento no custo de capital. Neste ano, o cenário é mais incerto: 25% esperam queda, enquanto mais da metade projeta alta nos custos. “Mais da metade relatou esperar um aumento nos custos de capital, destacando a incerteza econômica global e as taxas de juros ainda elevadas nos EUA”, afirma o relatório.
A AIE alerta que reduzir o custo de capital é essencial para destravar os investimentos necessários na transição energética dos EMDEs. Entre as soluções apontadas, estão o uso de garantias, compras públicas e reformas regulatórias, além de apoio internacional via instituições financeiras de desenvolvimento — embora o ambiente para financiamento concessional esteja cada vez mais restrito.
Roteiro para o G20 e COP29
Diante do cenário, a AIE foi incumbida pela Presidência Brasileira do G20 de desenvolver um roteiro para ampliação de investimentos em energia limpa nos EMDEs, com foco em abordagens inovadoras para mobilização de capital privado. As recomendações da agência foram apresentadas na Reunião Ministerial da AIE de 2024, e devem embasar a discussão da COP29, marcada para o fim deste ano.
“A AIE continua comprometida em fornecer insights valiosos por meio do Observatório do Custo de Capital e trabalhos relacionados”, finaliza o relatório.



