Estudo global reforça liderança das renováveis em competitividade e economia de escala, mas alerta para desafios na rede, financiamento e ambiente regulatório nos países em desenvolvimento
A energia renovável consolidou, em 2024, sua posição como a fonte de eletricidade mais competitiva do planeta. De acordo com o relatório anual da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), publicado nesta segunda-feira (22/07), 91% dos novos projetos renováveis comissionados no último ano foram mais baratos do que qualquer alternativa movida a combustíveis fósseis, mesmo sem considerar os custos ambientais ou os subsídios que muitas vezes favorecem as fontes convencionais.
Os dados reforçam que a transição energética global está não apenas em curso, mas sendo conduzida por argumentos de mercado. “Energia limpa é economia inteligente – e o mundo está seguindo o dinheiro”, declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em discurso especial durante o lançamento do relatório.
Solar e eólica lideram em custos
O estudo “Custos de Geração de Energia Renovável em 2024” aponta que a energia solar fotovoltaica foi, em média, 41% mais barata do que as fontes fósseis mais competitivas, enquanto a eólica onshore chegou a 53% de vantagem. Os valores médios de geração ficaram em US$ 0,043/kWh para solar e US$ 0,034/kWh para eólica terrestre, mantendo-se como as tecnologias mais acessíveis do setor elétrico.
Essa competitividade se reflete também nos impactos macroeconômicos. A IRENA estima que os 582 GW de capacidade renovável adicionados em 2024 evitaram cerca de US$ 57 bilhões em custos com combustíveis fósseis, e que a economia total proporcionada pelas fontes renováveis em operação no ano passado chegou a US$ 467 bilhões.
Crescimento enfrenta novos desafios
Apesar da vantagem econômica consolidada, o relatório alerta para entraves estruturais que ameaçam o ritmo da transição energética, especialmente nos mercados emergentes. Conexão à rede, licenciamento, financiamento e gargalos na cadeia de suprimentos são apontados como barreiras crescentes.
“A nova energia renovável supera os combustíveis fósseis em termos de custo, oferecendo um caminho claro para uma energia acessível, segura e sustentável”, ressalta o documento. No entanto, também afirma: “Esse progresso não é garantido”.
Segundo a IRENA, problemas como tarifas comerciais, tensões geopolíticas e escassez de materiais críticos podem gerar pressões temporárias sobre os custos. Enquanto regiões como Europa e América do Norte enfrentam atrasos em licenças e limitações de infraestrutura de rede, países da Ásia, África e América Latina podem reduzir ainda mais seus custos, desde que superem os obstáculos financeiros.
Financiamento é ponto crítico no Sul Global
A principal restrição nos países em desenvolvimento continua sendo o custo de capital. Mesmo com tecnologias acessíveis, o custo nivelado de eletricidade (LCOE) pode ser inflado por taxas de financiamento elevadas, reflexo de ambientes macroeconômicos instáveis ou percepção de alto risco por investidores.
O relatório traz um exemplo emblemático: enquanto os projetos eólicos onshore na Europa e na África tiveram LCOEs semelhantes em 2024 (US$ 0,052/kWh), os custos africanos foram majoritariamente financeiros, com taxas de capital que chegam a 12%, contra 3,8% na Europa.
Nesse contexto, a IRENA defende a estruturação de receitas estáveis como chave para atrair capital. Instrumentos como os contratos de compra de energia (PPAs) ganham papel central para reduzir risco e viabilizar projetos, especialmente em países com elevado potencial solar e eólico, como o Brasil.
Integração e digitalização: os próximos obstáculos
Além dos desafios financeiros, a integração da energia renovável variável à rede elétrica já se tornou uma nova fronteira crítica. Atrasos em conexões, baixa capacidade das redes e elevação dos custos locais estão levando ao adiamento de projetos – inclusive em países do G20.
A IRENA destaca que, para enfrentar essas questões, o setor depende de mais investimentos em redes modernas, sistemas de armazenamento e digitalização. O custo dos sistemas de armazenamento com baterias (BESS), por exemplo, caiu 93% desde 2010, chegando a US$ 192/kWh em 2024 para sistemas de grande escala.
Com a popularização de sistemas híbridos (solar + eólica + BESS) e o uso crescente de inteligência artificial, a tendência é que a flexibilidade do sistema elétrico se torne o fator central da próxima década. Contudo, sem infraestrutura digital robusta e planejamento integrado, o pleno aproveitamento do potencial renovável pode ser comprometido.



