Brasil identifica territórios estratégicos para tecnologias de captura e estocagem de carbono, aponta estudo da USP

Relatório do RCGI/USP integra dados geoespaciais, emissões industriais, logística e geologia para mapear regiões com alto potencial técnico para CCS e BECCUS, e orienta políticas públicas sustentáveis

Em um esforço inédito para estruturar a transição energética brasileira, um novo estudo do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), sediado na Universidade de São Paulo (USP), mapeou as principais regiões do país com viabilidade técnica para receber tecnologias de captura, uso e armazenamento de carbono, como CCS (Carbon Capture and Storage) e BECCUS (Bioenergia com Captura, Uso e Armazenamento de Carbono). A pesquisa foi apresentada ao Ministério de Minas e Energia (MME) em 14 de julho, durante o evento “Combustível do Futuro: Workshop CCS, CCUS e BECCS”, realizado em Brasília (DF).

Combinando ciência de dados, sensibilidade territorial e planejamento energético, o estudo propõe uma nova abordagem para orientar políticas públicas em prol da descarbonização. A apresentação ficou a cargo da professora Karen Mascarenhas, diretora de Recursos Humanos e Comunicação Institucional do RCGI e coordenadora do projeto, e da pesquisadora Drielli Peyerl, que liderou o estudo e hoje atua na Universidade de Amsterdã.

Metodologia inovadora oferece base concreta para decisões climáticas

O relatório é resultado do projeto “Percepção Social e Diplomacia Científica nas Transições Tecnológicas para uma Sociedade de Baixo Carbono”, que integra o programa Advocacy do RCGI. A partir de uma metodologia inédita, os pesquisadores cruzaram dados sobre emissões industriais, produção de biocombustíveis, infraestrutura logística (como gasodutos e ferrovias) e características geológicas do subsolo — sobretudo em bacias sedimentares.

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O resultado é um mapeamento detalhado que serve como guia para identificar territórios prioritários à implantação de projetos de CCS e BECCUS, contribuindo com a formulação de políticas climáticas ancoradas em ciência.

Segundo Karen Mascarenhas, “o caminho para uma economia de baixo carbono passa pela ciência, sim, mas também pela confiança, legitimidade e envolvimento das pessoas nos territórios onde essas transformações vão acontecer”.

Regiões com maior potencial técnico e desafios socioambientais

O estudo revela que a aplicação das tecnologias de captura e estocagem pode ser mais viável em localidades onde já existe infraestrutura energética instalada e proximidade com grandes emissores de CO₂. Entre os destaques para CCS, estão:

  • Serra (ES), com elevada emissão da indústria siderúrgica;
  • São Gonçalo do Amarante (CE), que abriga siderúrgicas e termelétricas a carvão e gás;
  • Manaus (AM), onde a geração térmica a gás é predominante.

Essas regiões combinam viabilidade técnica com localização estratégica, mas também exigem atenção ambiental por estarem inseridas em áreas ecologicamente sensíveis.

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Já no caso do BECCUS, o relatório destaca:

  • Uberaba (MG), referência nacional em bioenergia com emissões de CO₂ de alta pureza;
  • Regiões do Mato Grosso, onde a produção de etanol, biodiesel e biometano é expressiva.

Segundo Drielli Peyerl, “o estudo mapeia diversos locais com esse perfil, destacando, entre eles, alguns exemplos emblemáticos que ilustram o potencial de aplicação das tecnologias em diferentes contextos regionais”.

Bacias marinhas lideram em capacidade de estocagem de CO₂

As regiões litorâneas do Espírito Santo, Ceará e Rio Grande do Norte concentram o maior potencial de armazenamento geológico de carbono do país. De acordo com o relatório, essas áreas poderiam receber entre 167 e 372 megatoneladas (Mt) de CO₂, aproveitando inclusive estruturas já existentes da indústria de petróleo e gás, o que reduz os custos de implantação.

Outras bacias, com capacidade intermediária (entre 32 e 167 Mt), foram identificadas no Sudeste, Nordeste e Amazônia, ampliando o leque de possibilidades para projetos-piloto e desenvolvimento de corredores logísticos de descarbonização.

Contribuições para os ODS e riscos a serem considerados

O relatório reforça o papel das tecnologias CCS e BECCUS no cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima). No entanto, também alerta para riscos que podem comprometer outros ODS:

  • O armazenamento geológico offshore pode ameaçar o ODS 14 (Vida na Água) em caso de vazamentos;
  • A alta demanda hídrica em certos processos pressiona o ODS 6 (Água Potável e Saneamento).

Essas considerações exigem que a adoção das tecnologias venha acompanhada de avaliações técnicas, ambientais e sociais detalhadas.

Entraves regulatórios e recomendações estratégicas

Apesar do alto potencial técnico e econômico, a aplicação de CCS e BECCUS em larga escala no Brasil ainda enfrenta obstáculos importantes. O relatório cita o alto custo das tecnologias, lacunas regulatórias, monitoramento insuficiente e o risco de rejeição social como barreiras à adoção.

Entre as principais recomendações estão a definição de normas claras sobre a responsabilidade pelo carbono estocado, a estímulo a projetos-piloto em regiões prioritárias, implementação de mecanismos de monitoramento contínuo com protocolos auditáveis e o fortalecimento do engajamento social e da transparência na comunicação com as comunidades locais.

Para Drielli Peyerl, “este relatório representa um importante primeiro passo na construção de uma metodologia rigorosa e precisa para identificar indicadores-chave e polos de captura de carbono no Brasil. A abordagem vai além da tecnologia ao integrar os pilares do desenvolvimento sustentável (econômico, social e ambiental). Esperamos que este relatório e sua metodologia sirvam como fonte de inspiração para futuros aprimoramentos, atualizações e a inclusão de indicadores adicionais, contribuindo de forma substantiva para o avanço dos esforços de descarbonização do Brasil.”

Documento está disponível no site do RCGI

O relatório completo, intitulado Geospatial Assessment of Carbon Capture and Storage (CCS) & Bioenergy with Carbon Capture and Storage (BECCS) Opportunities in Brazil – Volume 1, é assinado por Alex Azevedo, Celso Cachola, Mariana Ciotta, Karen Mascarenhas e Drielli Peyerl, e já está disponível para consulta no site do RCGI.

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