Mais de 70% da nova capacidade de energia limpa foi instalada na Ásia em 2024; África e América Latina ficaram para trás, acentuando desequilíbrios na transição energética global
A transição energética mundial segue em ritmo acelerado, impulsionada principalmente pelo crescimento da energia solar e eólica. No entanto, esse avanço está ocorrendo de forma desigual. É o que mostra o novo relatório Estatísticas de Energia Renovável 2025, divulgado nesta quinta-feira (11/07) pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA). Segundo os dados, a capacidade global de energia renovável cresceu mais de 15% em 2024, com adição recorde de 582 gigawatts (GW). Mas mais de 70% desse crescimento se concentrou na Ásia, enquanto outras regiões, como África, América Central e Caribe, somaram apenas 2,8% do total.
A análise indica que, embora o aumento da capacidade renovável seja um passo crucial para a descarbonização, os benefícios da transição ainda estão longe de ser compartilhados de maneira equitativa. A Ásia liderou com 71% das adições, seguida pela Europa (12,3%) e América do Norte (7,8%). Já regiões como África e Eurásia, com vasto potencial para fontes renováveis, avançaram de forma tímida: a África aumentou sua capacidade em apenas 7,2% no ano passado.
Solar e eólica dominam nova capacidade
As fontes solar e eólica mantêm o protagonismo da expansão renovável. A energia solar respondeu por 453 GW das novas adições, demonstrando sua crescente competitividade e rápida implantação. A energia eólica veio logo atrás, com 114 GW adicionados em 2024. Juntas, as duas tecnologias foram responsáveis por 97,5% das adições líquidas de capacidade renovável no mundo.
O avanço expressivo dessas fontes consolidou ainda mais a participação das energias limpas na matriz global. Ao final de 2024, as renováveis somavam 46,2% da capacidade instalada global, quase empatando com os combustíveis fósseis, que representaram 47,3%.
Crescimento da geração e desafios futuros
O relatório também confirma a tendência de crescimento da geração de energia renovável, que subiu 5,6% em 2023 em relação ao ano anterior, totalizando 8.928 terawatts-hora (TWh). Em comparação, a geração de energia não renovável aumentou apenas 1,2% no mesmo período. Com isso, as fontes limpas já representam quase 30% da geração global de eletricidade.
Apesar dos avanços, a IRENA alerta que o ritmo atual de crescimento ainda não é suficiente para atingir a meta estabelecida na COP28, que prevê triplicar a capacidade instalada de renováveis até 2030, chegando a 11,2 terawatts (TW). Se o crescimento continuar na média atual, o mundo alcançará apenas 10,3 TW — 0,9 TW aquém da meta. Para fechar essa lacuna, será necessário ampliar o crescimento anual para 16,6% ao ano nos próximos cinco anos.
Desigualdade estrutural preocupa especialistas
A crescente disparidade entre regiões no avanço das renováveis preocupa líderes e especialistas. Francesco La Camera, diretor-geral da IRENA, destacou que o boom das energias limpas está criando empregos e fortalecendo economias nos países que conseguem atrair investimentos — mas deixando outros para trás.
“É fundamental reduzir a desigualdade e a lacuna de investimento entre países e regiões”, afirmou. “Com políticas direcionadas, financiamento internacional e parcerias que liberem capital e tecnologia onde são mais necessários, a transição energética pode ser um motor de crescimento econômico sustentável global.”
O alerta também foi reforçado por Simon Stiell, secretário executivo da ONU para Mudanças Climáticas, que defendeu ações mais rápidas e estruturadas para garantir que países em desenvolvimento participem da revolução energética. “Os investimentos necessários renderão enormes dividendos – reduzindo as emissões, impulsionando o crescimento econômico, criando empregos e apoiando energia acessível e segura para todos”, declarou.
Brasil e América Latina precisam acelerar
Apesar do imenso potencial solar, eólico e de biomassa, o desempenho da América Latina e Caribe ainda é tímido frente ao crescimento observado em outros continentes. O Brasil, em particular, tem feito avanços importantes com a expansão da energia solar e da eólica, mas enfrenta gargalos na transmissão, no acesso a financiamento e em políticas estruturantes para manter um ritmo de crescimento mais acelerado e sustentável.
Com o cenário global apontando para uma transição cada vez mais desigual, cresce a pressão sobre organismos multilaterais e governos nacionais para implementar políticas que não apenas acelerem o ritmo da transição, mas que também garantam sua justiça e inclusão.



