Geração hidrelétrica no Brasil ensaia nova era com alianças estratégicas desde a fase de viabilidade

Proposta inovadora une engenharia, fornecimento e construção em um modelo colaborativo com foco em valor e sustentabilidade

Em um momento em que a modernização e a eficiência dos projetos de geração hidrelétrica tornam-se cada vez mais relevantes no contexto da transição energética, especialistas do setor estão propondo uma mudança de paradigma na forma como usinas e modernizações são contratadas e executadas. Trata-se da substituição do tradicional modelo de “consórcios pontuais” — geralmente formados para obras específicas com múltiplos fornecedores atuando de forma isolada — pelo conceito de “alianças estratégicas a montante”, que integra todos os parceiros principais desde a fase inicial de concepção do empreendimento.

A proposta é liderada por executivos da SEEL Engenharia e da Hidroenergia, duas das principais empresas atuantes no segmento de infraestrutura hidrelétrica no Brasil. Segundo eles, essa abordagem integrada tem o potencial de reduzir significativamente os custos de capital (CAPEX), mitigar riscos operacionais e aumentar a confiabilidade dos projetos, ao mesmo tempo em que estabelece uma nova lógica de colaboração no setor.

Críticas ao modelo tradicional

Para Filippo Rodrigues, Líder de Alianças Estratégicas da SEEL, o modelo de consórcios pontuais funciona como um “jogo de Lego”, no qual o cliente contrata separadamente os diversos blocos do projeto — engenharia civil, fornecimento de turbinas, sistemas eletromecânicos, entre outros — e se responsabiliza pela integração. “Isso cria desalinhamentos técnicos, atrasos e riscos adicionais, pois os fornecedores não compartilham o mesmo grau de comprometimento e visão de longo prazo”, afirma.

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Esse tipo de fragmentação, segundo Rodrigues, sobrecarrega o investidor com responsabilidades de coordenação e pode comprometer a previsibilidade de entrega, fator crucial para a viabilidade econômico-financeira de usinas hidrelétricas — projetos que demandam capital intensivo e têm horizontes de retorno de longo prazo.

A força da colaboração desde o início

Na contramão desse modelo, a proposta de “alianças estratégicas a montante” consiste em unir construtoras, fabricantes e engenheiros em uma única estrutura colaborativa desde a fase de viabilidade do projeto. Essa integração precoce gera sinergias e permite otimizações técnicas significativas.

Rafael Kieling, CEO da Hidroenergia, destaca que “quando o cliente vê uma estrutura integrada cuidando de todas as frentes do projeto, a confiança aumenta exponencialmente. Há mais transparência, mais controle e, principalmente, mais segurança na entrega”.

Já Júlio Duarte, Diretor Técnico da Hidroenergia, afirma que o modelo permite antecipar soluções técnicas que agregam valor ao projeto. “Tivemos um caso em que substituímos uma turbina por outra de maior custo unitário, mas que possibilitou redesenhar toda a casa de força, gerando uma economia global expressiva. Isso só foi possível porque os especialistas estavam juntos desde o início”.

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Governança e mudança cultural no setor

Além das vantagens técnicas e econômicas, o modelo propõe um novo padrão de relacionamento entre os agentes do setor elétrico. Para Eduardo Lapa, Diretor de Mercado e Governança da SEEL Engenharia, o sucesso das alianças a montante depende de confiança mútua, alinhamento de objetivos e governança clara entre os parceiros.

“Precisamos sair da lógica de contratos puramente transacionais, focados apenas no menor preço de cada etapa, e migrar para parcerias estratégicas baseadas em desempenho e valor de longo prazo para o ativo. É uma evolução necessária para um setor cada vez mais competitivo e exigente em relação à eficiência e à sustentabilidade”, diz Lapa.

Desafios e perspectivas

Apesar das vantagens, os especialistas reconhecem que a adoção das alianças a montante exige uma mudança de mentalidade por parte de investidores, órgãos reguladores e agentes públicos. Também será necessário estabelecer modelos de governança robustos, com cláusulas que protejam os interesses das partes e mecanismos de incentivo ao desempenho coletivo.

A discussão completa sobre os benefícios e desafios do modelo foi tema do mais recente episódio do podcast “Conexões SEEL”, produzido pela própria SEEL Engenharia. Intitulado “Alianças Estratégicas em Geração Hidrelétrica”, o episódio já está disponível nas principais plataformas de áudio e visa estimular o debate técnico entre agentes do setor.

Em um momento de retomada de investimentos em renováveis e modernização de ativos existentes, as alianças a montante aparecem como uma alternativa promissora para dar novo fôlego à geração hidrelétrica brasileira, tradicionalmente responsável por mais de 60% da matriz elétrica nacional.

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