Evento internacional destaca que triplicar a capacidade renovável até 2030 exige inovação sistêmica, digitalização justa e fortalecimento das cadeias de valor locais no Sul Global
Durante três dias, especialistas, líderes políticos, empresas do setor energético, acadêmicos e representantes de instituições financeiras reuniram-se na Semana de Inovação da IRENA 2025 com um objetivo central: discutir como a inovação em energia renovável pode se tornar o eixo de uma transição energética inclusiva, resiliente e economicamente transformadora, sobretudo para países em desenvolvimento.
Com a meta global de triplicar a capacidade renovável até 2030, o evento trouxe cinco conclusões-chave que reforçam a urgência de agir de forma coordenada e integrada.
Inovação além da tecnologia: a necessidade de um novo olhar sistêmico
Uma das principais mensagens do evento foi clara: inovação não se resume a tecnologia. A transição energética requer uma abordagem sistêmica, que inclua não apenas soluções técnicas, mas também reformas regulatórias, políticas públicas integradas, modelos de negócios sustentáveis e planejamento intersetorial. O setor elétrico está diante de desafios complexos que não podem ser resolvidos com ferramentas isoladas. Integração entre atores e áreas, como energia, planejamento urbano, transporte e agricultura, será essencial.
Essa visão holística é fundamental para que a inovação seja capaz de acelerar não apenas a descarbonização, mas também a distribuição justa dos benefícios da transição energética.
Digitalização e IA: essenciais, mas com planejamento e inclusão
Outro destaque da conferência foi o papel crescente da digitalização e da inteligência artificial (IA) na gestão de redes elétricas, previsão de demanda, operação de fontes renováveis e otimização da eficiência energética. Entretanto, o avanço tecnológico traz também novos desafios: o consumo crescente de data centers e sistemas computacionais baseados em IA pressiona a infraestrutura energética existente, exigindo melhor planejamento da expansão de redes e uso intensivo de fontes renováveis.
Mais do que isso, os debatedores enfatizaram a importância de garantir que a digitalização seja inclusiva e liderada localmente, evitando a reprodução de desigualdades tecnológicas. Países do Sul Global devem ser protagonistas na aplicação e desenvolvimento dessas soluções, e não apenas receptores passivos de tecnologias.
Comunidades no centro: energia como direito, não como luxo
A experiência de projetos locais na China rural, Colômbia e Malásia serviu para mostrar que a transição energética bem-sucedida é aquela que coloca as pessoas no centro. Comunidades que acessam energia limpa e confiável conseguem alavancar a agricultura, a educação, a saúde e a geração de renda. A energia, nesse contexto, não é um fim, mas um meio para o desenvolvimento humano e econômico.
Porém, modernizar as redes e ampliar o acesso com qualidade ainda é um enorme desafio para as economias emergentes. Mais do que equipamentos, é preciso estrutura institucional, políticas públicas de longo prazo, financiamento adequado e participação comunitária. A equidade energética passa a ser vista como pilar da justiça social.
Fortalecimento das cadeias de valor locais: o protagonismo do Sul Global
As transições energéticas só serão sustentáveis se vierem acompanhadas de industrialização e geração de empregos locais. A IRENA defende que países do Sul Global priorizem o desenvolvimento de cadeias de valor regionais, com produção local de equipamentos, qualificação de mão de obra e estímulo à inovação endógena.
Políticas industriais regionais integradas, que compartilhem recursos, competências e infraestruturas, são estratégicas para a redução da dependência externa e o aumento da resiliência. A construção de uma economia verde no Sul Global exige visão de longo prazo, coordenação entre países vizinhos e acesso a financiamento internacional com justiça climática.
Energia como motor de inclusão econômica
Por fim, a conferência reforçou um ponto central: a energia deve ser um catalisador de inclusão socioeconômica. A mera expansão do acesso não garante desenvolvimento se não estiver associada a usos produtivos, apoio a microempreendimentos, geração de valor local e participação ativa das mulheres e comunidades tradicionais na economia da energia.
Modelos de financiamento inovadores, como microcrédito, subsídios inteligentes e fundos climáticos, foram discutidos como caminhos possíveis para transformar a energia em vetor de desenvolvimento local. A energia renovável, quando bem integrada aos objetivos sociais, pode impulsionar novas cadeias econômicas, reduzir desigualdades e preparar territórios para um futuro sustentável.



