Sobre a agenda climática: por que se importar?

Por Ênio Meinen, diretor de Coordenação Sistêmica, Sustentabilidade e Relações Institucionais do Sicoob

"O tempo para buscar soluções globais está se esgotando. Só podemos encontrar soluções adequadas se agirmos juntos e de acordo." (Papa Francisco, em 11/12/2024 — Assessoria de imprensa do Vaticano)

Recentemente, assistimos à intensificação de notícias sobre o desembarque de algumas corporações — notadamente, empresas ligadas à indústria financeira e ao mercado de capitais — dos pactos associados à agenda climática. Em um contexto marcado por narrativas por vezes polarizadas e, não raro, irrefletidas, urge resgatarmos o porquê de esse tema demandar mais que uma atenção meramente passageira. Requer, com efeito, análise estratégica, que vai além dos interesses financeiros imediatos dos acionistas/donos; responsabilidade e, acima de tudo, coerência. Esses requisitos são ainda mais caros para o movimento cooperativo, que carrega na sua essência, e desde sempre, o compromisso com o desenvolvimento sustentável, cabendo-lhe exercer protagonismo diferenciado e coliderar as ações nesse campo.

Os efeitos adversos das mudanças climáticas são inegáveis. O ano de 2024 não nos deixou dúvidas: foi o mais quente da história, com uma média global de 15,10°C — 1,6°C acima dos níveis pré-industriais. Foi o primeiro ano em que a média anual ultrapassou o limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris, considerado crítico para evitar consequências climáticas severas. O relatório do Centro Europeu Copernicus alerta que esse aquecimento tem impulsionado eventos extremos, como secas, incêndios florestais e tempestades intensas, tendo as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) como principal catalisador.

O mundo, conforme já alertara o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan (15/11/2006 – Conferência sobre Mudança Climática de Nairóbi), “está chegando ao ponto de inflexão além do qual a mudança climática pode se tornar irreversível. Se isso acontecer, corremos o risco de negar às gerações presentes e futuras o direito a um planeta saudável e sustentável – toda a humanidade está a perder.”

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A boa notícia é que a agenda climática abre caminhos, e o mercado já está respondendo. Instituições nacionais, como a Fundação Getulio Vargas, a Fundação Dom Cabral e o Instituto Brasileiro de Relações com Investidores, têm sinalizado que o mercado de carbono será uma das grandes tendências em ESG para 2025. A ampliação desse mercado promete não apenas mitigar impactos ambientais, mas criar incentivos concretos para que as empresas se reinventem, compensando emissões e adotando práticas mais sustentáveis.

Desprezar a agenda climática é negligenciar riscos e oportunidades econômicas significativos. As mudanças climáticas, com efeito, introduzem riscos físicos, como desastres naturais que afetam ativos e garantias, e de transição, resultantes de políticas ambientais mais rígidas que podem desvalorizar setores não sustentáveis. Por outro lado, há uma enorme oportunidade de transformar esses desafios em crescimento econômico inclusivo, mostrando que é possível prosperar de forma equilibrada.

A pressão por esse alinhamento já está na mesa — e nos corredores das regulamentações. O Brasil voltou a demonstrar protagonismo na arena climática, reafirmando o compromisso com o Acordo de Paris e estabelecendo uma meta ambiciosa: neutralidade de carbono até 2050. Iniciativas como a Taxonomia Sustentável Brasileira e o recém-criado Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa são ferramentas concretas para reposicionar o país na vanguarda das negociações climáticas globais. A COP-30, marcada para ser realizada em Belém, em novembro de 2025, é um convite claro para que o setor produtivo apresente resultados consistentes e fiéis ao discurso.

No setor financeiro, o avanço é igualmente significativo. O Banco Central do Brasil, sob a tutela do Conselho Monetário Nacional (CMN), vem aprimorando instrumentos para a análise e o monitoramento dos riscos social, ambiental e climático (RSAC), fortalecendo a Agenda BC# no pilar Sustentabilidade, em convergência com o art. 192 da Constituição Federal. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por sua vez, avança ao regulamentar a integração de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade nos relatórios consolidados das empresas de capital aberto. Essa convergência regulatória está transformando o mercado financeiro no Brasil, exigindo maior sintonia das instituições com as metas climáticas globais.

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Nesse cenário, as cooperativas financeiras emergem como atores únicos. Mais do que intermediárias financeiras, elas têm uma vocação intrínseca: promover, em equilíbrio, o desenvolvimento econômico, social e ambiental. A forte presença física e a conexão direta com as comunidades são vetores para financiar soluções locais e inovadoras, como geração de energia renovável, agricultura regenerativa e economia circular. Quando uma cooperativa investe, por exemplo, em linhas de crédito verdes, não só apoia negócios sustentáveis, mas também contribui para a inclusão dos pequenos produtores rurais e empreendedores urbanos, na transição energética.

A agenda climática, enfim, não pode ser refém de ciclos políticos e ideologias de momento. Como movimento cooperativo, temos o dever particular — e o privilégio — de sermos referência na agenda humanitária em sua plenitude. Ela exige gestão baseada em evidências científicas, ações consistentes e compromisso com resultados reais.

No cooperativismo, lembremos uma vez mais, não perseguimos apenas metas operacionais; somos norteados por valores e princípios que priorizem o bem comum e assegurem um amanhã mais equitativo em diferentes dimensões. A escolha societária que fizemos, somada à decisão da Organização das Nações Unidas distinguindo-nos pela segunda vez com o Ano Internacional das Cooperativas, por acreditar que as nossas entidades constroem um mundo melhor, nos leva a reafirmar continuamente os laços com uma economia inclusiva, resiliente, sustentável e humanizada. Afinal, esse é o legado que nos cabe construir — e o fazemos como nosso propósito, e com determinação.

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