Congestionamento da rede e cortes de geração pressionam investimentos no país; BloombergNEF prevê retomada regional em 2026, com avanço do armazenamento em baterias.
A expansão da capacidade renovável perdeu força na América Latina em 2025 pela primeira vez em mais de uma década, pressionada pela desaceleração do mercado brasileiro. No país, as adições de capacidade eólica e solar caíram 27%, de quase 24 GW em 2024 para 17,3 GW no ano passado, em meio ao aumento dos cortes de geração (curtailment), às limitações da rede elétrica e à deterioração da viabilidade econômica de novos projetos.
O cenário sinaliza uma mudança nas prioridades de investimento do setor: além de ampliar a oferta de energia renovável, o sistema precisa de maior flexibilidade para integrar a geração existente e atender à demanda nos momentos críticos. Nesse contexto, o armazenamento em baterias ganha espaço, enquanto México e Chile ampliam sua participação no crescimento regional.
A BloombergNEF (BNEF) projeta que as adições combinadas de energia eólica, solar e armazenamento em baterias na América Latina alcancem 29 GW em 2026. A consultoria também revisou para cima suas perspectivas até 2030, impulsionada pela expansão do armazenamento e pelo avanço de mercados menores.
Curtailment reduz atratividade de novos parques eólicos
A desaceleração brasileira é especialmente acentuada na energia eólica. As novas instalações caíram para 2 GW em 2025, menos da metade do volume registrado em 2024. A projeção da BNEF indica que o ritmo continuará em queda, chegando a apenas 0,4 GW em 2027.
Os cortes de geração ocorrem quando a produção disponível precisa ser reduzida por restrições operacionais, limitações de transmissão ou condições de equilíbrio entre oferta e demanda. Para os empreendedores, a energia que deixa de ser entregue pode comprometer a receita dos projetos, sobretudo quando não há mecanismos adequados de compensação.
Além das restrições físicas da rede, a incerteza sobre a compensação financeira pelo curtailment e a menor rentabilidade esperada dificultam decisões de investimento. A BNEF prevê uma recuperação gradual das adições eólicas apenas no fim da década.
O quadro reforça a importância de ampliar a capacidade de transmissão e aprimorar os mecanismos de operação e comercialização para acomodar a geração renovável disponível.
Solar distribuída resiste, mas enfrenta pressão econômica
A geração solar em telhados mantém maior resiliência em relação aos grandes projetos centralizados, pois não está sujeita, até o momento, ao mesmo impacto do curtailment que afeta parte dos empreendimentos conectados à rede de transmissão.
Ainda assim, a BNEF projeta desaceleração das novas instalações. Um dos fatores é a redução da atratividade econômica da autoprodução, diante da cobrança gradual de componentes tarifários pelo uso da rede, conforme as regras estabelecidas pelo marco legal da geração distribuída, a Lei 14.300/2022.
A perspectiva indica que a expansão da geração distribuída também dependerá das condições de remuneração da energia injetada, das tarifas aplicáveis e da capacidade dos consumidores de aumentar o autoconsumo.
Baterias devem superar 1 GW anual até 2028
Na avaliação da BNEF, o armazenamento em baterias será uma das frentes de maior crescimento no mercado brasileiro de energia. As adições anuais, que somaram apenas 90 MW em 2025, devem ultrapassar 1 GW até 2028.
O avanço inicial deve se concentrar em sistemas behind-the-meter, instalados nas unidades consumidoras residenciais, comerciais e industriais. Esses equipamentos podem armazenar energia para uso posterior, reduzir picos de demanda e melhorar a gestão do consumo, conforme o perfil de cada instalação e as condições tarifárias.
A expansão em larga escala deverá ganhar impulso com o primeiro leilão brasileiro dedicado à contratação de capacidade de armazenamento em baterias, previsto para dezembro de 2026. O certame poderá abrir uma nova frente de contratação para projetos capazes de disponibilizar potência ao sistema elétrico.
A efetiva expansão dessa tecnologia dependerá, porém, das regras de contratação e remuneração, dos custos dos equipamentos e da viabilidade dos projetos. O armazenamento pode contribuir para a flexibilidade operacional, mas não substitui a necessidade de investimentos em transmissão, distribuição e gestão da geração.
Crescimento regional se diversifica
A desaceleração brasileira ocorre enquanto outros mercados latino-americanos ampliam seus investimentos em fontes renováveis. México e Chile aparecem entre os países que aceleram a implantação de novos projetos, contribuindo para diversificar geograficamente o crescimento da região.
A previsão de 29 GW em adições combinadas de eólica, solar e baterias em 2026 aponta para uma retomada regional, embora com uma composição tecnológica diferente daquela observada durante o ciclo de forte expansão dos parques eólicos e solares no Brasil.
Para o mercado brasileiro, o desafio passa a combinar a continuidade da expansão renovável com soluções que permitam aproveitar melhor a capacidade instalada. A evolução do armazenamento, a redução dos gargalos de rede e a previsibilidade regulatória serão determinantes para a retomada dos investimentos em geração de grande porte.



