Relatório defende elevar a capacidade renovável global a 38,2 TW, ampliar a eletrificação e acelerar investimentos em redes, armazenamento e eficiência energética para limitar o aquecimento a 1,5°C.
A transição energética global exigirá investimentos acumulados de cerca de US$ 10,3 trilhões entre 2026 e 2050, mas poderá gerar ganhos econômicos de US$ 46 trilhões em relação ao cenário de referência. A estimativa é da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), que defende acelerar a eletrificação com fontes renováveis e ampliar os investimentos em redes elétricas, armazenamento e eficiência energética.
As projeções integram o relatório World Energy Transitions Outlook 2026 (WETO), divulgado nesta terça-feira (13), que propõe reformas estruturais para alinhar o sistema energético à trajetória de limitação do aquecimento global a 1,5°C. O documento alerta que a expansão recorde das fontes renováveis não será suficiente se a infraestrutura elétrica e a eletrificação do consumo não avançarem no mesmo ritmo.
A entidade sustenta que a transição precisa substituir progressivamente os combustíveis fósseis, em vez de apenas acrescentar geração renovável a um sistema ainda dependente dessas fontes.
Capacidade renovável precisará chegar a 38,2 TW
A IRENA estima que a capacidade instalada mundial de energia renovável precisará aumentar dos atuais 5,2 terawatts (TW) para aproximadamente 38,2 TW até 2050. No mesmo horizonte, mais de 80% da eletricidade deverá ser gerada por fontes solar e eólica.
O relatório também projeta que a eletricidade passará a representar 35% do consumo final de energia em 2035 e mais de 50% em 2050. A expansão depende da eletrificação de atividades hoje atendidas por combustíveis fósseis, incluindo usos nos transportes, na indústria e nos edifícios.
Para Francesco La Camera, diretor-geral da IRENA, o avanço da geração renovável precisa ser acompanhado por mudanças na infraestrutura e no funcionamento do setor energético: “A transição energética global está sob pressão. O crescimento recorde das energias renováveis não é suficiente por si só: a eficiência energética está aquém do esperado, as redes elétricas estão com dificuldades para acompanhar o ritmo e a demanda global de energia continua a aumentar. Não podemos concretizar a transição simplesmente adicionando energias renováveis a um sistema energético inalterado. Precisamos de reformas para construir a infraestrutura de um novo sistema energético — um sistema eletrificado, eficiente, flexível e alimentado por energias renováveis.”
A expansão das redes de transmissão e distribuição, o armazenamento e os mecanismos de flexibilidade são necessários para integrar a geração variável, atender ao crescimento da demanda e preservar a confiabilidade do fornecimento. Sem esses avanços, gargalos de infraestrutura podem limitar o aproveitamento da capacidade renovável instalada.
Redes e armazenamento são centrais para a eletrificação
O relatório destaca que a infraestrutura elétrica precisa acompanhar a mudança no perfil de geração e consumo. A integração de fontes renováveis em larga escala exige planejamento coordenado entre geração, redes, armazenamento e demanda, além de mercados capazes de responder às condições operacionais.
A IRENA também defende maior eficiência energética. Embora a oferta renovável esteja crescendo, os ganhos de eficiência permanecem abaixo do necessário para compensar o aumento do consumo mundial.
La Camera ressalta que a velocidade de implantação precisa estar associada à capacidade de coordenar as diferentes soluções: “Eletrificação, redes elétricas, armazenamento, flexibilidade e eficiência energética não são meros elementos de apoio à margem dessa transformação; são a sua espinha dorsal. A questão central é a rapidez com que podemos implementar essas soluções em conjunto, na escala necessária para manter a transição alinhada com o limite de 1,5 °C, garantindo ao mesmo tempo segurança energética, acessibilidade, competitividade e maior aceitação social.”
A avaliação reforça a necessidade de investimentos que vão além da construção de usinas. Para o setor elétrico, o desafio envolve expandir a infraestrutura, reduzir restrições de escoamento e desenvolver mecanismos que conciliem a variabilidade das fontes renováveis com a segurança do suprimento.
Transição pode ampliar empregos e reduzir preços
No cenário de 1,5°C da IRENA, a economia mundial cresceria 1,1% ao ano acima do registrado no cenário de referência, acumulando ganhos estimados em US$ 46 trilhões até 2050.
O número de empregos em energias renováveis também poderá aumentar mais de cinco vezes no período, partindo de pouco mais de 16 milhões atualmente. A agência projeta ainda uma redução de 15% nos preços da energia para os consumidores finais até 2050, à medida que os mercados de eletricidade se tornem mais competitivos em custos.
Esses resultados são projeções condicionadas à implementação do cenário proposto, e não garantias de desempenho econômico. A concretização dos benefícios dependerá das decisões de investimento, das políticas públicas e da capacidade de distribuir os ganhos da transição entre setores e grupos sociais.
O financiamento é um dos principais desafios. Segundo o relatório, os investimentos acumulados entre 2026 e 2050 deverão alcançar cerca de US$ 10,3 trilhões, com recursos adicionais direcionados principalmente à geração renovável, às redes elétricas, à flexibilidade e à eletrificação do consumo final.
A IRENA também defende que políticas de proteção social e acesso equitativo às oportunidades econômicas sejam incorporadas desde o início da implementação. Para La Camera, a dimensão social é determinante para a sustentação política da transformação: “A qualidade da transição será tão importante quanto a sua velocidade. Nossa análise mostra que a descarbonização acelerada pode fortalecer o investimento, a produtividade, o emprego e o bem-estar. A acessibilidade financeira, a proteção social e o acesso equitativo às oportunidades econômicas devem ser incorporados à implementação desde o início para sustentar a aceitação pública e garantir que os benefícios da transição sejam amplamente compartilhados.”
IRENA propõe sete prioridades para governos
O WETO 2026 estabelece uma agenda de ações para a próxima década, com sete prioridades voltadas à reorganização dos sistemas energéticos. Entre as diretrizes apresentadas estão:
- Planejamento integrado: coordenar políticas de energia, infraestrutura e mercados.
- Estratégias nacionais: desenvolver roteiros de transição adaptados às condições de cada país.
- Modernização das redes: acelerar investimentos em transmissão, distribuição e flexibilidade.
- Investimento e indústria: fortalecer estratégias industriais e mobilizar capital para tecnologias de baixo carbono.
- Eficiência energética: ampliar os ganhos de eficiência e reduzir o desperdício de energia.
- Políticas sociais e ambientais: distribuir os benefícios da transição e considerar seus impactos sociais.
- Cooperação internacional: aprofundar a coordenação entre países para acelerar a implementação das medidas.
A recomendação central é que os governos conduzam a transformação de forma coordenada, preservando a confiabilidade do sistema e a segurança energética enquanto ampliam a participação das fontes renováveis.
Para o setor elétrico, a mensagem do relatório é que a expansão da geração limpa precisa avançar em conjunto com a infraestrutura e a eletrificação dos usos finais. A capacidade de mobilizar investimentos e executar essas mudanças será decisiva para aproximar a transição energética da trajetória climática proposta pela agência.


