Estudo projeta 24 GW de exportação do Nordeste e propõe sistema de 600 kV e 3 GW em corrente contínua para integrar até 60 GW de renováveis
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgou o Estudo de Expansão das Interligações Regionais – Parte III, documento que apresenta as soluções estruturantes recomendadas para reforçar o intercâmbio de energia entre as regiões Nordeste, Sudeste e Sul no horizonte 2033–2035. O estudo se destaca por introduzir, pela primeira vez no Sistema Interligado Nacional (SIN), a recomendação de uso da tecnologia HVDC-VSC em larga escala, em uma linha de 600 kV e 3.000 MW de capacidade, configuração inédita nas Américas e na Europa em termos de tensão e extensão.
Segundo a EPE, o objetivo central é garantir a expansão da capacidade de transmissão necessária para integrar a crescente oferta de geração renovável e dar robustez ao atendimento da carga em cenários hidrológicos críticos. O trabalho consolida um roadmap tecnológico de longo prazo para transmissão em longas distâncias e grandes blocos de potência, com foco na segurança, flexibilidade operativa e estabilidade do sistema.
Expansão das interligações permitirá integração de até 60 GW de renováveis
O estudo indica que, ao final de 2033, a capacidade média de exportação da região Nordeste deverá alcançar cerca de 24 GW, garantindo condições para integrar até 60 GW de geração eólica e solar nos sistemas Norte e Nordeste. A análise também estima que a região Sul, tradicionalmente importadora em períodos de estiagem, terá capacidade ampliada para 17 GW em 2033 e 18 GW em 2035.
Essa expansão é considerada estratégica para elevar a resiliência do SIN frente a variações hidrológicas e para viabilizar novas cargas eletrointensivas, que tendem a se concentrar em regiões com disponibilidade energética competitiva.
Estudo comparou alternativas em CA e CC, incluindo soluções multiterminais
Para identificar a alternativa tecnológica mais adequada ao cenário brasileiro, a EPE avaliou soluções em corrente alternada (CA), inclusive em 1.000 kV, e em corrente contínua (HVDC), nas tecnologias LCC e VSC, em configurações ponto a ponto e multiterminais. A análise considerou critérios técnicos, econômicos, de confiabilidade e de capacidade de fornecimento pelo mercado internacional.
No contexto de alta participação de fontes renováveis baseadas em inversores (IBRs) e da crescente complexidade das interações entre múltiplos sistemas de corrente contínua, a HVDC-VSC se destacou como a alternativa superior. O desempenho da tecnologia na mitigação de problemas de multi-infeed foi apontado como determinante para sua recomendação.
Sistema HVDC-VSC recomendado será o maior das Américas e da Europa
Com base nos resultados, a EPE propõe a implantação de um sistema HVDC-VSC de 600 kV e 3.000 MW, com aproximadamente 2.500 km de extensão, conectando a nova subestação Angicos (RN) à subestação Itaporanga 2 (SP), na divisa com o Paraná. O investimento total estimado é de R$ 26,5 bilhões, sendo R$ 17,1 bilhões destinados diretamente ao sistema HVDC, incluindo linha e estações conversoras.
Além da infraestrutura em corrente contínua, o estudo também recomenda um conjunto de obras em corrente alternada, com novas linhas, recapacitação de ativos existentes, novas transformações e equipamentos de compensação reativa.
EPE oferece flexibilidade tecnológica inédita para os leilões de transmissão
Um dos pontos inovadores do estudo é a apresentação de três alternativas tecnológicas equivalentes para implementação do sistema HVDC, em 525 kV, 600 kV e 800 kV. A proposta visa ampliar a flexibilidade do processo licitatório, permitindo que o mercado apresente soluções alinhadas às rotas de evolução tecnológica previstas para os próximos anos.
A abordagem possibilita maior competitividade entre fornecedores, reduz riscos de dependência tecnológica e incorpora diferentes estágios de maturidade industrial no segmento HVDC.
Tecnologia reforça desempenho operacional e estabilidade do sistema
O estudo aponta que, entre os principais benefícios do HVDC-VSC, estão:
- maior flexibilidade operativa e capacidade de controle de fluxo de potência;
- suporte aprimorado ao controle de tensão;
- contribuição direta para a estabilidade do sistema elétrico;
- capacidade de conexão em áreas com elevada inserção de renováveis;
- possibilidade de operação em back-to-back diante de contingências severas.
O projeto também deve impulsionar a capacitação técnica nacional e fortalecer a indústria brasileira de equipamentos e serviços ligados a sistemas HVDC, ampliando a expertise do país em infraestrutura crítica para a transição energética.
EPE reforça papel estratégico em estudos de longo prazo
O relatório, produzido pela equipe da Superintendência de Transmissão de Energia Elétrica, reúne análises técnicas, econômicas e de planejamento que fundamentam as recomendações apresentadas. Segundo a EPE, o trabalho reforça o compromisso da instituição com a transparência e com a disponibilização de informações completas e isentas ao mercado.
A documentação detalha todas as etapas do estudo, oferecendo condições equânimes de avaliação para agentes, reguladores e demais interessados. A empresa afirma que o resultado subsidia o Ministério de Minas e Energia (MME) na formulação de políticas e na definição de empreendimentos para futuros leilões de transmissão.
Um workshop para apresentação detalhada das conclusões está programado para dezembro, com data e informações adicionais a serem divulgadas em breve.



