Brasil pode replicar modelo chinês e acelerar sua transição energética, aponta estudo da Allianz Research

Relatório destaca que política industrial coordenada e investimento em inovação podem impulsionar produtividade e ampliar o uso de energias renováveis no país

O Brasil desponta como um dos países com maior potencial para se beneficiar do modelo de transição energética liderado pela China. É o que aponta o estudo “The Electro-State Era: From Made in China to Powered, Designed & Financed by China?”, elaborado pela Allianz Research, divisão de pesquisa macroeconômica da Allianz Trade, líder global em seguro de crédito.

Segundo o levantamento, a estratégia chinesa de industrialização limpa, baseada em políticas públicas integradas, investimentos em infraestrutura e estímulos à inovação tecnológica, pode servir de modelo para economias emergentes, como o Brasil, que buscam descarbonizar sua matriz energética sem comprometer o crescimento econômico.

Lições da China: coordenação estatal e inovação tecnológica

O relatório enfatiza que a China transformou-se em um exemplo global ao alinhar política industrial e transição energética. A expansão massiva da indústria de clean-tech, que inclui energia solar, eólica, baterias e veículos elétricos, foi impulsionada por uma combinação de planejamento estatal, engajamento privado e investimentos estruturais.

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Esse modelo, afirmam os economistas, tem potencial para ser replicado no Brasil, cuja matriz elétrica já é majoritariamente renovável, mas ainda carece de políticas industriais consistentes que fomentem a inovação, a reindustrialização verde e a autonomia tecnológica.

“A combinação chinesa de política industrial, investimento em infraestrutura e cooperação internacional pode ser replicada em economias emergentes para descarbonizar sem sacrificar o desenvolvimento”, destacam os autores do estudo.

No Brasil, a expansão da energia solar e eólica e o avanço de programas como o Combustível do Futuro e o Programa Nacional de Hidrogênio demonstram o potencial para integrar inovação tecnológica e sustentabilidade, dois pilares que também sustentam o sucesso chinês.

Produtividade e inovação: os pilares da nova economia energética

A pesquisa também aponta que a Inteligência Artificial (IA) e o investimento em P&D serão determinantes para o futuro da produtividade global e, por consequência, da transição energética. Na China, esses fatores já são tratados como multiplicadores de crescimento econômico.

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“A inovação e a IA podem ajudar a elevar a produtividade, especialmente em setores manufatureiros como químicos, metais, equipamentos elétricos e eletrônicos”, afirma o relatório.

De acordo com a Allianz Research, um aumento de 10% na intensidade de P&D resulta em um crescimento médio de 7% na produtividade. Essa lógica também pode beneficiar o Brasil, cuja indústria ainda é marcada por baixa intensidade tecnológica e elevada dependência de insumos importados.

A China hoje ocupa a 10ª posição no Índice Global de Inovação da WIPO, subindo da 29ª colocação em 2015, e já supera países como a Alemanha. O Brasil, por sua vez, evoluiu do 70º para o 52º lugar no mesmo período, avanço que indica potencial de amadurecimento inovador, mas ainda distante do nível das principais potências.

IA e disputa geopolítica: o embate entre China e EUA

O estudo da Allianz destaca que a corrida global pela liderança em Inteligência Artificial está se consolidando como uma disputa de dois modelos distintos: o chinês, movido por escala e coordenação, e o norte-americano, impulsionado por capital e infraestrutura tecnológica.

A China já concentra mais da metade dos pesquisadores de IA do mundo, 25% das publicações científicas e 70% das patentes globais nessa área. Os Estados Unidos, por outro lado, lideram em investimentos privados e capacidade de processamento computacional, abrigando quase 75% dos data centers planejados no mundo.

“Essas vantagens estruturais, combinadas com melhor desempenho em publicações altamente citadas e liderança na produção de chips de ponta, sustentam a superioridade tecnológica dos EUA”, explicam os economistas.

Apesar da disputa, o estudo ressalta que o equilíbrio entre inovação, coordenação estatal e abertura de mercado é o que garantirá o sucesso na economia de baixo carbono. Nesse cenário, países como o Brasil têm a oportunidade de adotar o melhor dos dois modelos, combinando escala produtiva e inovação local com investimentos privados estratégicos.

China: líder global em energia limpa e oportunidades para o Brasil

A China consolidou-se como líder mundial em tecnologias de energia limpa, responsável por 60% da capacidade global de manufatura de painéis solares, turbinas eólicas e baterias. A queda de mais de 80% nos preços dos módulos fotovoltaicos na última década é resultado direto dessa política de longo prazo, e abre uma janela de oportunidade para países como o Brasil expandirem rapidamente suas fontes renováveis.

“A liderança clean-tech da China demonstra que a transição energética é ambiciosa e alcançável quando apoiada por política coordenada, inovação e colaboração internacional”, conclui o relatório.

O Brasil, que já possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo (com mais de 85% de geração renovável), pode acelerar sua trajetória de descarbonização ao adotar políticas industriais inspiradas nesse modelo, ampliando investimentos em hidrogênio verde, armazenamento de energia, biometano e eletrificação da mobilidade pesada.

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