Diretor da Aneel alerta para possível impacto de R$ 2,5 bilhões nas tarifas devido a critérios adotados em leilão do MME

Fernando Mosna critica parâmetros utilizados pelo Ministério de Minas e Energia em leilão do risco hidrológico, alegando que extensão de outorgas a grandes geradoras pode onerar os consumidores brasileiros

O leilão realizado na última sexta-feira (1º/8), relacionado à compensação do risco hidrológico (GSF), reacendeu o debate sobre os critérios adotados para prorrogação de outorgas de concessões de usinas hidrelétricas no Brasil. Durante reunião da diretoria colegiada da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), nesta terça-feira (5/8), o diretor Fernando Mosna fez um alerta contundente: os consumidores de energia podem ser onerados em até R$ 2,5 bilhões devido à metodologia escolhida pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

“O consumidor de energia pode pagar R$ 2,5 bilhões a mais por inconsistência de critérios definidos pelo Ministério de Minas e Energia para realizar um leilão na semana passada relacionado ao risco hidrológico”, declarou Mosna durante a sessão pública.

Extensão de concessões favoreceu geradoras, segundo avaliação da agência

No certame promovido pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), empresas como Eletrobras, Cemig, CTG Brasil e Statkraft adquiriram Certificados de Recebíveis do GSF no mercado de curto prazo. Essas aquisições garantiram a essas companhias o direito à extensão das concessões de algumas de suas maiores usinas hidrelétricas — um benefício de alto valor econômico.

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Segundo Mosna, se tivessem sido aplicados os critérios técnicos da própria Aneel, os prazos de extensão dessas outorgas seriam menores. Isso resultaria em uma economia expressiva para o consumidor cativo. “Parâmetros definidos pelo governo para o certame beneficiaram as empresas vencedoras com um prazo de extensão de outorga de usinas hidrelétricas maior do que se fossem aplicados critérios da Aneel — o que, por sua vez, onera o consumidor de energia”, completou o diretor.

Leilão do GSF: contexto e funcionamento

O leilão do GSF é uma etapa prevista na Lei nº 14.052/2020, que trata da repactuação dos efeitos financeiros da judicialização do risco hidrológico no mercado de curto prazo de energia elétrica. A repactuação prevê a liquidação de débitos acumulados por geradoras hidrelétricas que, ao longo dos anos, acionaram a Justiça contra perdas provocadas por despacho fora da ordem de mérito ou por baixa hidraulicidade.

Ao adquirirem os Certificados de Recebíveis, as geradoras se comprometem a quitar os valores devidos, abrindo caminho para que recebam a extensão das concessões de suas usinas como contrapartida. Contudo, a forma como os prazos de extensão foram definidos pelo MME é o centro da controvérsia.

Impacto tarifário e questionamentos regulatórios

A estimativa de R$ 2,5 bilhões adicionais nas tarifas se refere à diferença entre o valor econômico das concessões com os critérios do MME e aquele que resultaria da aplicação das diretrizes técnicas da Aneel. Para Mosna, o impacto não apenas contradiz o princípio da modicidade tarifária, mas também levanta questionamentos sobre a governança regulatória e os limites entre formulação de política pública e atuação técnica das agências.

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Apesar da crítica pública, a Aneel não informou se tomará medidas formais para reverter os efeitos do leilão ou ajustar os cálculos de compensação futura. A manifestação de Mosna, no entanto, sinaliza que a questão pode ter desdobramentos regulatórios ou judiciais.

Empresas contempladas e silêncio institucional

As companhias beneficiadas pelo leilão — Eletrobras, Cemig, CTG Brasil e Statkraft — ainda não se manifestaram sobre a crítica da Aneel. Todas atuam com ativos relevantes no setor de geração hídrica e têm interesse direto na extensão de concessões, que pode agregar valor significativo aos seus portfólios.

Do lado do governo, o MME também não comentou oficialmente as observações do diretor da Aneel até o momento da publicação desta matéria.

Risco hidrológico segue no centro das atenções do setor

O episódio ilustra como o risco hidrológico — uma das variáveis mais complexas do setor elétrico brasileiro — permanece como um dos principais focos de tensão entre agentes privados, governo e consumidores. Em um cenário de transição energética e expansão das fontes renováveis, a previsibilidade regulatória e o equilíbrio entre interesses setoriais ganham ainda mais importância.

Ao final da reunião da diretoria, Mosna reforçou o papel da agência na defesa dos consumidores: “Estamos aqui para garantir que as decisões no setor elétrico tenham base técnica e que o consumidor não pague mais do que o necessário”.

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