Crescimento de data centers no Brasil pressiona a rede elétrica e abre caminho para nova economia baseada em dados

Segundo o MME, 52 projetos já solicitaram conexão à Rede Básica do SIN, com perspectiva de 13,2 GW de demanda até 2035 — maior parte abastecida por fontes renováveis

A transformação digital vem gerando impactos diretos no sistema elétrico brasileiro. De acordo com dados recentes do Ministério de Minas e Energia (MME), o país já contabiliza 52 pedidos de conexão de data centers à Rede Básica do Sistema Interligado Nacional (SIN) até junho de 2025. Esse movimento, que teve início em 2020, reflete a crescente demanda energética de empresas de tecnologia e reforça o protagonismo do Brasil no cenário global da infraestrutura digital.

Desde os primeiros registros, o volume de projetos aumentou significativamente. Até maio de 2024, havia apenas 12 pedidos registrados no MME. Em pouco mais de um ano, esse número subiu 330%, indicando o avanço da digitalização no país. Segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o crescimento evidencia o potencial do Brasil na nova economia baseada em dados.

“Nosso país tem um papel muito importante diante da expansão de serviços de inteligência artificial e armazenamento de dados, pois temos recursos energéticos e uma matriz energética renovável. Estamos avançando para tornar o ambiente regulatório ainda mais atrativo e para fortalecer a infraestrutura energética e tecnológica em todas as regiões”.

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Dentre os 52 pedidos, 18 já foram contemplados com portarias ministeriais que reconhecem a alternativa técnica para conexão à rede, enquanto outros 34 processos estão em fase de análise. Apenas neste ano, o MME publicou seis novas portarias, relativas a projetos localizados nos estados da Bahia (1), Rio Grande do Sul (1) e São Paulo (4), revelando uma distribuição geográfica diversificada e descentralizada.

Expansão com energia limpa

Uma das principais características dessa nova demanda é o perfil sustentável dos empreendimentos. A expectativa é que os data centers sejam majoritariamente abastecidos por fontes renováveis, como solar, eólica e hídrica — alinhando-se à matriz energética brasileira, uma das mais limpas do mundo. A proposta vai ao encontro das metas globais de descarbonização e reforça o compromisso do setor energético com a eficiência e a sustentabilidade.

Além da vertente ambiental, a expansão dos data centers tem um papel significativo no desenvolvimento regional. Os novos empreendimentos devem gerar empregos, atrair investimentos e fomentar a economia local nas regiões onde forem instalados, especialmente em áreas com potencial energético e infraestrutura adequada.

Perspectiva de 13,2 GW de demanda até 2035

A magnitude dos investimentos pode ser mensurada pela demanda acumulada projetada. De acordo com os dados apresentados ao MME pelos próprios consumidores, caso todos os projetos obtivessem pareceres de acesso favoráveis junto ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a demanda total poderia chegar a 13,2 gigawatts (GW) até 2035. Trata-se de um volume comparável ao da potência instalada de várias grandes hidrelétricas brasileiras somadas.

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A tendência confirma que a infraestrutura de energia se tornará ainda mais estratégica para viabilizar a nova economia baseada em dados, computação em nuvem, inteligência artificial e serviços digitais.

Etapas para a conexão à rede e transparência

O processo de acesso à Rede Básica segue diretrizes bem estabelecidas pela legislação brasileira. A Portaria MME nº 24/2014 define os critérios por meio do “Guia de Procedimentos para Acesso ao Serviço Público de Transmissão de Energia Elétrica e Conexão à Rede Básica do SIN”.

Nessa jornada, o primeiro passo é a elaboração de um Estudo de Mínimo Custo Global, que analisa diferentes alternativas de conexão com base no volume de demanda informado pelo consumidor. São considerados os custos de investimento, o impacto nas perdas elétricas e a viabilidade técnica. A alternativa com menor custo global é reconhecida em portaria ministerial, conforme previsto no Decreto nº 5.597/2005.

A partir desse reconhecimento, o consumidor pode solicitar o parecer de acesso ao ONS, que avalia a capacidade do sistema para atender à nova carga. Com parecer positivo, o passo seguinte é a assinatura do contrato de uso do sistema de transmissão, viabilizando, de fato, a conexão do data center à Rede Básica.

Para garantir a transparência do processo, o MME disponibiliza um painel digital de acesso público com informações atualizadas sobre os pedidos de conexão à Rede Básica. A ferramenta permite consultar o status dos projetos, portarias publicadas e a evolução dos processos.

Implicações para o setor elétrico

O expressivo aumento na demanda por conexão de data centers representa um novo desafio para o planejamento do setor elétrico. O crescimento acelerado exige maior integração entre planejamento energético e digital, e reforça a necessidade de investimentos em transmissão, infraestrutura e modernização do sistema.

Além disso, amplia-se o debate sobre segurança energética, resiliência da rede e disponibilidade de fontes despacháveis, especialmente em regiões com concentração de novos empreendimentos de alto consumo.

A conexão de data centers ao SIN, abastecidos por energia limpa, posiciona o Brasil como hub estratégico para a era da informação, ao mesmo tempo em que impulsiona transformações econômicas, sociais e tecnológicas nas próximas décadas.

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