Senado analisa projeto que impõe teto ao custo da energia de Itaipu para conter tarifas no Brasil

Proposta estabelece limite de US$ 12 por quilowatt para revenda feita pela ENBPar e reacende debate sobre destino dos recursos da usina após quitação da dívida em 2023

O Senado Federal analisa um projeto de lei que poderá impactar diretamente as tarifas de energia elétrica pagas por consumidores brasileiros. Em tramitação na Comissão de Infraestrutura (CI), o Projeto de Lei nº 1.830/2025, de autoria do senador Esperidião Amin (PP-SC), propõe a imposição de um teto de US$ 12 por quilowatt (kW) para a energia da Itaipu Binacional revendida no Brasil pela Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar).

A medida pretende conter o custo da energia gerada pela hidrelétrica, que, mesmo após a quitação da dívida de construção da usina em 2023, manteve uma tarifa de US$ 16,71/kW até pelo menos 2026, conforme definição do governo brasileiro. O projeto segue agora para análise da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), onde poderá receber decisão terminativa — ou seja, se aprovado, seguirá diretamente para a Câmara dos Deputados, salvo apresentação de recurso para votação em Plenário.

Preço da energia de Itaipu permanece elevado mesmo após quitação da dívida

O projeto de Esperidião Amin baseia-se em um ponto central: o Tratado de Itaipu, assinado em 1973 entre Brasil e Paraguai, previa que a tarifa da energia seria reduzida após o fim do pagamento da dívida de construção da usina. No entanto, isso não ocorreu na prática. Parte dos valores antes destinados ao pagamento da dívida passou a financiar programas de responsabilidade socioambiental da própria Itaipu Binacional, cujos gastos saltaram de US$ 302 milhões em 2021 para US$ 921 milhões em 2023, segundo dados apresentados pelo autor do projeto.

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Para Amin, esses gastos configuram uma espécie de “orçamento paralelo”, com pouca transparência e escassa fiscalização institucional. “Os consumidores brasileiros são impedidos de se beneficiarem de uma redução tarifária na energia gerada por Itaipu, o que aliviaria a elevadíssima tarifa de energia elétrica paga pelas famílias e pelas empresas brasileiras”, argumenta o parlamentar.

A proposta, no entanto, não altera os termos do Tratado de Itaipu, que estabelece que os preços da energia sejam definidos pela própria binacional. A medida foca exclusivamente na revenda da energia dentro do território brasileiro, feita pela estatal ENBPar, responsável por intermediar a energia que cabe ao Brasil.

Debate sobre transparência e controle institucional

O projeto também reacende uma discussão antiga sobre os mecanismos de controle dos gastos da Itaipu Binacional. Embora a empresa seja fruto de um tratado internacional, operando sob regime jurídico próprio, parlamentares e entidades de controle questionam a ausência de fiscalização efetiva por parte do Tribunal de Contas da União (TCU).

Uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu que o TCU só pode auditar as contas da Itaipu mediante acordo formal entre Brasil e Paraguai — o que ainda não foi implementado. Uma Comissão Binacional de Contas, prevista em nota diplomática firmada em 2021, continua pendente de criação.

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Dessa forma, os recursos utilizados em programas de responsabilidade socioambiental — que incluem investimentos em infraestrutura, cultura e ações sociais em municípios da área de influência da usina — vêm sendo alvos de críticas pela falta de controle externo sistemático.

Impacto potencial na modicidade tarifária

Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), o valor de US$ 16,71/kW foi definido para vigorar até 2026 com base na manutenção dos compromissos operacionais da usina. No entanto, estimativas do próprio governo indicam que, após esse período, o custo operacional poderá cair para uma faixa entre US$ 10 e US$ 12/kW, valor que o projeto tenta antecipar por meio da imposição de um teto legal.

A proposta legislativa é vista por seus defensores como uma forma de garantir previsibilidade, modicidade tarifária e responsabilidade na aplicação de recursos de origem pública. A energia de Itaipu representa uma fatia significativa do portfólio de fornecimento da região Centro-Sul do país, o que dá à proposta um impacto potencial expressivo sobre os custos de distribuição.

A iniciativa também dialoga com o contexto mais amplo de debates sobre subsídios cruzados, abertura do mercado livre e eficiência tarifária — temas centrais na atual agenda de modernização do setor elétrico brasileiro.

A expectativa é que a matéria seja analisada pela CAE ainda no segundo semestre de 2025. Se aprovada, a proposta poderá alterar o modelo de precificação de um dos ativos mais emblemáticos do setor energético nacional.

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