Relatório encomendado pela Frente Nacional dos Consumidores de Energia revela viabilidade técnica e econômica da substituição do diesel por sistemas fotovoltaicos em áreas remotas do Norte do Brasil
A descarbonização da matriz elétrica nas regiões mais remotas do Brasil deu um importante passo com a divulgação de um estudo técnico da consultoria Envol, realizado a pedido da Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE). A análise mostra que substituir geradores a diesel por sistemas solares com baterias pode representar uma redução de até 44% nos custos da eletricidade em comunidades da Amazônia Legal.
Atualmente, cerca de 4 milhões de brasileiros vivem sem acesso de qualidade à energia elétrica – 2,7 milhões deles residentes em Sistemas Isolados (SISOL), fora da malha do Sistema Interligado Nacional (SIN). Nestas regiões, o fornecimento é feito quase exclusivamente por geradores a diesel, o que resulta em uma eletricidade cara, poluente e instável.
Segundo o estudo intitulado “Descarbonização dos Sistemas Isolados na Amazônia”, há experiências bem-sucedidas de implantação de painéis solares com baterias que fornecem energia 24 horas por dia, com eficiência superior e menores custos operacionais em comparação com o modelo atual.
“A transição das fontes fósseis para as renováveis na geração elétrica na Amazônia significa promover inclusão e desenvolvimento social, com redução de custos, maior estabilidade e diminuição da emissão de gases de efeito estufa”, afirmou Luiz Eduardo Barata, presidente da FNCE.

Custo alto, impacto ambiental e desigualdade
De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 89% da eletricidade gerada nos SISOL ainda é proveniente de combustíveis fósseis, especialmente óleo diesel, apesar da redução gradual observada desde 2018, quando a dependência era de 97%. Em 2024, esse percentual caiu para 67%.
O modelo atual é ineficiente, caro e ambientalmente insustentável. Estima-se que famílias que utilizam geradores a diesel possam gastar até R$ 900 por mês para manter o acesso à energia. A título de comparação, o custo de geração de energia com diesel chega a R$ 2.000/MWh, contra R$ 238/MWh do SIN. Mesmo fontes renováveis alternativas como óleos vegetais ou resíduos florestais apresentam custos elevados.
Além do impacto ambiental, os SISOL contribuem com 3,8% das emissões de CO₂ equivalente do bioma Amazônia, dentro de um contexto em que o setor de energia responde por 18,3% das emissões nacionais.
Energia solar com baterias: uma solução viável e estratégica
Apesar do alto investimento inicial, a energia solar combinada com armazenamento em baterias oferece vantagens econômicas claras a médio e longo prazo. O estudo da Envol projeta que, ao longo de 25 anos, os sistemas solares independentes gerariam economias significativas, tanto para os consumidores quanto para os cofres públicos, que atualmente subsidiam os altos custos da geração a diesel por meio da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), alocada na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).
Hoje, a CCC representa quase 25% de todo o encargo da CDE, uma das componentes que compõem a fatura de energia dos brasileiros. A substituição gradual por sistemas renováveis não só desonera o sistema elétrico nacional, como também contribui para melhorar a imagem do Brasil em um cenário internacional cada vez mais atento à descarbonização da economia – especialmente em ano preparatório para a COP 30, que será realizada em Belém (PA).

Desenvolvimento com dignidade e sustentabilidade
A FNCE ressalta que a adoção de sistemas solares com baterias pode transformar a realidade de milhares de famílias que hoje vivem com acesso precário à eletricidade. Além da economia, os ganhos envolvem dignidade, segurança, saúde, educação e geração de renda, sobretudo em comunidades indígenas, ribeirinhas e isoladas.
O estudo também aponta a importância de políticas públicas eficazes para acelerar essa transição, garantindo financiamento, suporte técnico e envolvimento das comunidades locais.
Com um dos SINs mais renováveis do planeta, com 87% da energia advinda de fontes limpas, o Brasil tem condições técnicas, climáticas e institucionais para liderar um novo ciclo de desenvolvimento na região amazônica – com energia limpa, barata e acessível para todos.