O mundo procura exatamente o que o Brasil tem. Vamos saber aproveitar?

Por Paulo Mantovani, diretor de recursos naturais da WTW

O mundo entrou em uma fase nunca vista antes. Estamos vendo, todos os dias, profundas transformações advindas da Inteligência Artificial, das novas tecnologias, do turbulento cenário geopolítico, dentre outras. Tudo isso está obrigando diversas regiões a reorganizar suas cadeias de abastecimento.

E poucos países têm tanto a oferecer nesse processo quanto o Brasil. Possuímos água em abundância e uma matriz energética majoritariamente renovável; somos líderes em produção agropecuária e detentores de uma das maiores biodiversidades do planeta; contamos com reservas de minerais essenciais à transição energética e dispomos de um pré-sal de altíssima produtividade. Ou seja, reunimos, em um único território, praticamente todos os ativos que a economia global está disputando.

Essa combinação não é acidental, e, também, não é nova. O que mudou foi o contexto. A pandemia de COVID-19, a crise energética europeia e o acirramento das tensões geopolíticas expuseram, de forma definitiva, a fragilidade de depender de poucos fornecedores para insumos fundamentais.

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Diante desse cenário, governos e empresas em todo o mundo passaram a priorizar segurança de abastecimento tanto quanto custo e eficiência. Nessa nova lógica, países capazes de fornecer energia, alimentos e matérias-primas de forma confiável e em escala ganham um protagonismo que não tinham há uma década.

O Brasil está exatamente nessa posição. Agora, a grande questão é se vamos saber aproveitar isso. Pois oportunidades existem.

Por exemplo, à medida que a eletrificação de produtos, como os carros elétricos, avança, temos também o aumento da demanda por metais como lítio, cobre e níquel, além, é claro, dos minerais das terras raras, que o Brasil possui em grandes quantidades, mas ainda pouco exploradas.

Com a expansão da inteligência artificial e dos data centers, também cresce a necessidade de energia limpa em grande volume, algo que o Brasil já oferece.

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No momento em que o mundo se preocupa cada vez mais com a resiliência e a segurança alimentares, o agronegócio brasileiro se consolida não apenas como um produtor de alimentos, mas, também, como fonte de etanol, biometano e combustíveis sustentáveis de aviação.

Isso sem falarmos da biodiversidade brasileira, que é única no mundo, e que segue como base para inovação em saúde, cosméticos e novos materiais.

Nenhum outro país do mundo reúne essa combinação de ativos, de forma tão abundante. Temos, portanto, uma vantagem competitiva real, mas é preciso ser honesto sobre um ponto central: vantagem competitiva não é o mesmo que resultado garantido.

A experiência de outros países mostra que ter recursos abundantes no solo não assegura, por si só, crescimento, produtividade ou desenvolvimento industrial. O que separa quem transforma potencial em resultado de quem permanece apenas como fornecedor de matéria-prima é a capacidade de execução. E, para tanto, torna-se necessário infraestrutura logística eficiente, estabilidade regulatória, capital disponível para projetos de longo prazo e qualificação técnica para avançar das etapas de extração para as de processamento e agregação de valor.

O lítio ilustra bem essa lógica, pois o valor do produto não está apenas em extrair o mineral, mas, sim, em processá-lo, transformá-lo em componentes e integrá-lo a cadeias tecnológicas mais sofisticadas.

É esse o verdadeiro desafio para o Brasil na próxima década. Não se trata de discutir se temos os recursos que o mundo demanda, pois isso já está definido. Trata-se de decidir, com visão de longo prazo, se estamos dispostos a investir no que for necessário para transformar essa base natural em infraestrutura, inovação e capacidade produtiva.

Países com recursos semelhantes podem atrair volumes de investimento muito diferentes simplesmente porque oferecem condições distintas de previsibilidade e execução. Para o capital de longo prazo, a segurança institucional é tão importante quanto a disponibilidade de recursos naturais.

O risco, portanto, não é a falta de oportunidade. É deixar de aproveitá-la por falta de planejamento estratégico. Gargalos logísticos crônicos, insegurança regulatória e ausência de uma visão de Estado para setores estratégicos podem fazer com que outros mercados, com menos recursos naturais que o Brasil, mas com mais previsibilidade, capturem parte do investimento que poderia vir para cá.

O momento pede que os stakeholders envolvidos, como empresas, investidores, governo e demais agentes envolvidos que possam surgir, tratem essa combinação de ativos como uma janela estratégica que não ficará aberta indefinidamente. A demanda global por energia, minerais críticos, alimentos e infraestrutura deve continuar crescendo nas próximas décadas, mas os países mais preparados para atendê-la com escala, previsibilidade e eficiência é que vão liderar esse ciclo.

O Brasil tem, hoje, uma oportunidade rara de ocupar um lugar central na reorganização da economia global. Aproveitá-la exige decisão, planejamento e continuidade, não apenas para reconhecer o potencial, mas também construir, de forma deliberada e sustentada, as condições para transformá-lo em resultado concreto e duradouro.

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