Empresa planeja chegar a 13 hubs na Grande Porto Alegre em 2027, com carregadores de até 300 kW; expansão inclui gestão dinâmica de potência e futura integração de baterias estacionárias.
O mercado de veículos leves eletrificados avançou 135,14% no Rio Grande do Sul entre janeiro e setembro de 2026, com 24.010 emplacamentos, segundo dados apresentados pela RIC Charge. O crescimento amplia a demanda por infraestrutura de recarga de alta potência, especialmente para motoristas profissionais que dependem da disponibilidade dos veículos para trabalhar.
Para acompanhar esse movimento, a empresa prevê investir R$ 8 milhões em 2027 na expansão de sua rede de recarga ultrarrápida, com a meta de alcançar 13 hubs inteligentes na Grande Porto Alegre. Os pontos deverão contar com carregadores de corrente contínua (DC) de até 300 kW e sistemas de gerenciamento dinâmico de potência.
Alta dos elétricos pressiona demanda por recarga
Os veículos 100% elétricos (BEVs) somaram 13.705 emplacamentos no estado nos nove primeiros meses do ano, alta de 241,86% em relação ao mesmo intervalo de 2025, conforme os números divulgados pela empresa. No período, os eletrificados representaram 25% das vendas totais de veículos no mercado gaúcho.
O avanço da frota aumenta a necessidade de pontos de recarga capazes de atender veículos com uso intensivo, como os de motoristas de aplicativo e frotistas. Nesse segmento, o tempo de parada influencia diretamente a disponibilidade operacional e a produtividade.
A ampliação da infraestrutura também exige atenção à capacidade de atendimento das instalações elétricas. Eletropostos de alta potência podem concentrar uma demanda significativa em curtos intervalos, tornando relevantes o dimensionamento das conexões, a capacidade dos transformadores e o controle da potência simultânea dos carregadores.
Gestão dinâmica busca otimizar potência dos carregadores
A RIC Charge utiliza sistemas de distribuição dinâmica de potência, chamados de Split Charge, para ajustar a energia disponibilizada aos veículos conectados. A tecnologia considera a demanda dos conectores ativos e a capacidade de absorção de cada bateria, evitando que todos os carregadores operem necessariamente em sua potência máxima ao mesmo tempo.
De acordo com o fundador da empresa, Ionathan Cunha, a velocidade efetiva da recarga depende tanto da infraestrutura quanto das características do veículo: “Modelos como o Porsche Taycan, o Audi e-tron GT e o BMW iX3 50 xDrive, que suportam potência de recarga de até 320 kW em corrente contínua (DC), podem recuperar de 10% a 80% da carga da bateria em aproximadamente 18 minutos, em condições ideais. Nos hubs da RIC Charge, equipados com carregadores de alta potência de até 300 kW, o tempo de recarga dependerá da capacidade do veículo de receber energia, da temperatura da bateria e das condições de operação. A combinação entre infraestrutura de alta potência e veículos compatíveis permite reduzir o tempo de parada e tornar a recarga mais ágil, especialmente para motoristas que dependem do veículo elétrico em suas atividades diárias.”
A potência nominal do carregador, isoladamente, não determina o tempo de recarga. O resultado depende também da arquitetura elétrica do veículo, da curva de carregamento da bateria, da temperatura e do nível de carga inicial.
Automação e protocolo OCPP 2.0.1
A disponibilidade dos eletropostos é outro fator relevante para operações contínuas. A empresa afirma operar seus hubs remotamente, com telemetria para acompanhar parâmetros como tensão, corrente, temperatura e isolamento elétrico, além de permitir o reinício de equipamentos à distância.
A arquitetura utiliza o protocolo aberto OCPP 2.0.1, voltado à comunicação entre carregadores e sistemas de gerenciamento. A especificação oferece recursos de segurança, monitoramento e interoperabilidade, embora a confiabilidade efetiva dependa também da implementação, da conectividade e da manutenção dos equipamentos.
Cunha destaca que a automação é necessária para manter a operação sem equipes permanentes em cada local: “O fato de operarmos 24 horas por dia, sete dias por semana, sem uma equipe permanente no local, exige um nível muito alto de automação e monitoramento. Hoje conseguimos acompanhar todos os principais parâmetros do carregador em tempo real e até reiniciar um equipamento remotamente. Isso reduz o tempo de indisponibilidade e aumenta muito a confiabilidade da operação.”
A empresa informa que busca manter a indisponibilidade técnica abaixo de 1%. O indicador, porém, não veio acompanhado de uma série histórica ou de uma metodologia de cálculo no material divulgado.
Baterias podem reduzir picos de demanda
A RIC Charge também planeja integrar sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) aos hubs. A proposta é utilizar o armazenamento para reduzir a potência demandada da rede nos períodos de maior consumo e disponibilizar energia adicional aos carregadores quando necessário.
Essa estratégia, conhecida como peak shaving, pode ajudar a administrar picos de demanda e otimizar o uso da conexão elétrica existente. A viabilidade depende de fatores como capacidade e potência do sistema de baterias, perfil de utilização dos carregadores, tarifas de energia, custos de implantação e condições de conexão à rede.
O armazenamento, portanto, pode reduzir a necessidade de reforços em determinadas instalações, mas não elimina automaticamente a exigência de obras. A solução depende do dimensionamento do hub e das restrições elétricas identificadas no local.
Expansão começa pela Grande Porto Alegre
A estratégia prevê encerrar 2026 com seis hubs em operação na capital gaúcha e ampliar a rede para 13 unidades na Grande Porto Alegre em 2027. A empresa pretende consolidar a cobertura regional antes de avançar para outras cidades. O plano inclui padronização tarifária, cadastro único e distribuição geográfica dos pontos, com foco em usuários que precisam de previsibilidade para planejar a recarga durante a jornada de trabalho.
Cunha afirma que a expansão será conduzida inicialmente dentro da região metropolitana, antes da entrada em novos mercados: “Nós decidimos crescer de dentro para fora. Primeiro queremos construir uma rede forte e capilarizada em Porto Alegre, atendendo o usuário em diferentes regiões da cidade. Depois vamos levar esse mesmo conceito para outras cidades. A ideia é que o cliente tenha um único cadastro, preço padronizado e o mesmo nível de serviço, independentemente do hub que escolher.”
A expansão da infraestrutura de recarga será um dos fatores para sustentar o crescimento da mobilidade elétrica no estado. Além da instalação de carregadores, a evolução do mercado dependerá da capacidade das redes de distribuição, da gestão da demanda e da viabilidade econômica de soluções complementares, como o armazenamento estacionário.


