Energia limpa avança apesar das crises e abre espaço para soluções de potência e armazenamento

Por Ronaldo Gerdes é CEO da UCB Power

A geração de energia limpa atravessou crises geopolíticas, guerras e instabilidade econômica, mas sem perder tração. Em 2025, por exemplo, a União Europeia produziu mais eletricidade a partir de fontes eólica e solar do que de combustíveis fósseis, um marco que encerra o debate sobre se a transição energética, de fato, acontecerá. A questão agora é quem será capaz de capturar o seu valor econômico. 

De acordo com o relatório European Electricity Review 2026, do think tank energético Ember, eólica e solar responderam por cerca de 30% da eletricidade gerada no bloco europeu em 2025, superando os 29% provenientes de fontes fósseis. Somadas às hidrelétricas e outras renováveis, quase metade da matriz elétrica da UE já é limpa. Esse avanço ocorreu apesar do redirecionamento de investimentos públicos para defesa e segurança, o que indica que a transição deixou de depender exclusivamente de subsídios governamentais. 

O principal motor desse crescimento é a energia solar fotovoltaica. Em apenas um ano, a sua geração cresceu mais de 20% na União Europeia, alcançando aproximadamente 13% da eletricidade produzida. O fenômeno não é regional. A Agência Internacional de Energia projeta que a capacidade global de geração por fontes renováveis dobrará até 2030, com cerca de 80% dessa expansão concentrada no modal solar. China, Índia e Europa lideram esse movimento. 

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O fator decisivo por trás dessa aceleração é econômico. O custo nivelado da energia solar caiu cerca de 90% na última década, tornando-a uma das fontes mais baratas de eletricidade em diversas regiões do mundo. Ao mesmo tempo, a volatilidade dos preços de combustíveis fósseis reforçou a percepção de que segurança energética e descarbonização caminham juntas. 

No entanto, o avanço das renováveis expõe um novo gargalo: a confiabilidade do sistema elétrico. Fontes intermitentes exigem soluções complementares, como armazenamento de energia, sistemas de potência, gestão inteligente de cargas e infraestrutura de backup. O crescimento da geração limpa, portanto, desloca o centro do valor econômico da simples produção de energia para as tecnologias que garantem a sua estabilidade e disponibilidade. 

Esse deslocamento já se reflete no mercado. Investimentos globais em energia limpa superam, hoje, os aportes em novos projetos fósseis, e segmentos como baterias, eletrônica de potência e sistemas de armazenamento apresentam taxas de crescimento de dois dígitos ao ano. Empresas capazes de fornecer essas soluções tornam-se peças centrais da nova arquitetura energética. 

A comparação internacional é reveladora. Enquanto Europa, China e Índia avançam, os Estados Unidos reduzem o ritmo após a revisão de subsídios e restrições a projetos em áreas federais. O resultado é uma perda relativa de competitividade em setores que devem definir o crescimento econômico das próximas décadas. 

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A transição energética, portanto, já não é apenas uma resposta à crise climática. Ela se consolidou como uma estratégia industrial, geopolítica e tecnológica. Países e empresas que compreenderem esse novo desenho, investindo não só em geração, mas também em infraestrutura, armazenamento e resiliência, estarão melhor posicionados para liderar o próximo ciclo de crescimento global.

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