Governo paraguaio exige explicações sobre suposto ataque hacker da Abin antes de retomar tratativas sobre tarifas da hidrelétrica
As relações entre Brasil e Paraguai sofreram um abalo significativo nesta terça-feira (1º de abril de 2025), quando o governo paraguaio anunciou a suspensão das negociações sobre o Anexo C da Itaipu Binacional. A decisão foi tomada após denúncias de que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teria conduzido um ataque hacker contra autoridades paraguaias, em um episódio que reacende tensões diplomáticas entre os dois países.
O chanceler do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, declarou que o governo do presidente Santiago Peña não retomará as discussões até que o Brasil forneça esclarecimentos formais sobre o caso. Para tanto, o embaixador brasileiro em Assunção, José Antonio Marcondes, foi convocado a prestar esclarecimentos. Paralelamente, o Paraguai também chamou seu embaixador em Brasília, Juan Ángel Delgadillo, para consultas internas.
As denúncias foram inicialmente divulgadas pelo portal UOL, que apontou que a Abin teria espionado computadores de autoridades paraguaias para obter informações estratégicas sobre a negociação de tarifas da energia gerada por Itaipu. Segundo a reportagem, o planejamento da operação teria começado no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas sua execução ocorreu já sob a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O impasse na negociação do Anexo C
O Anexo C do tratado de Itaipu, que estabelece as bases financeiras da comercialização da energia produzida pela usina, expirou em 2023, após 50 anos de vigência. Em fevereiro, o Itamaraty havia anunciado que Brasil e Paraguai chegariam a um novo acordo até 30 de maio de 2025. No entanto, a suspensão das negociações pode comprometer esse cronograma e aumentar as incertezas em torno das tarifas de energia elétrica.
A crise ocorre poucos meses após um entendimento parcial entre os países sobre as tarifas da usina. Em maio de 2024, Brasil e Paraguai fecharam um acordo que estabeleceu o valor de US$ 19,28 por kW até 2026. O Paraguai defendia um aumento para US$ 22,70, enquanto o Brasil buscava reduzir ou manter o valor atual. O entendimento incluiu mecanismos para garantir que o custo da energia não aumentasse para os consumidores brasileiros.
Governo Lula nega envolvimento
Em resposta às acusações, o governo brasileiro negou qualquer participação da administração Lula no suposto ataque hacker. Em nota oficial, o Planalto afirmou que a operação foi autorizada em junho de 2022, ainda durante a gestão Bolsonaro, e que, ao tomar conhecimento do caso, a nova administração determinou a interrupção da ação em março de 2023.
Apesar disso, a explicação brasileira não convenceu as autoridades paraguaias. O ministro da Indústria e Comércio do Paraguai, Javier Giménez, destacou que a confiança entre os dois países foi abalada e precisará ser reconstruída. O chanceler Lezcano reforçou que seu país avaliará as respostas do governo brasileiro antes de decidir sobre os próximos passos na negociação de Itaipu.
A crise surge em um momento delicado para a relação bilateral, uma vez que a renegociação do Anexo C representa um dos temas mais sensíveis da agenda entre Brasil e Paraguai. A depender do desenrolar da situação, o episódio pode ter impactos não apenas na economia de ambos os países, mas também na diplomacia regional.