Diplomatas e especialistas debatem desafios e oportunidades para a região na produção e processamento de lítio, cobre e níquel, fundamentais para a transição energética
A América Latina está diante de uma oportunidade histórica para se consolidar como líder global na produção e refino de minerais críticos, essenciais para o avanço da transição energética mundial. A crescente demanda por insumos como lítio, cobre, níquel e bauxita tem impulsionado um debate estratégico sobre o papel da região no fornecimento desses recursos, fundamentais para tecnologias como baterias, painéis solares e turbinas eólicas.
Essa pauta esteve no centro das discussões de uma reunião internacional realizada hoje em Paris, organizada pelo Diretor Executivo da Agência Internacional de Energia (IEA), Fatih Birol, em parceria com o Embaixador do Brasil, José Buainain Sarquis, e a Embaixadora do México, Sybel Galván Gómez. O encontro reuniu 14 delegações latino-americanas e caribenhas, além de quatro instituições internacionais especializadas, com o objetivo de avaliar caminhos para que a região capitalize essa demanda crescente e fortaleça sua cadeia de valor no setor mineral.
O evento ocorre em um momento decisivo para a geopolítica dos minerais estratégicos. Com o aumento da pressão por uma economia de baixo carbono, grandes potências como Estados Unidos, China e União Europeia disputam o acesso a matérias-primas essenciais para suas indústrias de energia limpa. A América Latina, por sua vasta reserva mineral e matriz energética predominantemente renovável, tem o potencial de se tornar um centro global de mineração e refino sustentável.
Minerais estratégicos e a oportunidade de valor agregado
A extração de minerais críticos há muito tempo faz parte da economia latino-americana, mas a região tem historicamente desempenhado o papel de fornecedora bruta desses insumos, sem capturar o valor agregado das cadeias produtivas. Atualmente, a maior parte do lítio extraído na Argentina, Bolívia e Chile – países que compõem o chamado “triângulo do lítio” – é enviada para refinarias na China, onde passa por processamento antes de ser utilizado na fabricação de baterias. O mesmo ocorre com o cobre chileno e peruano, além do níquel brasileiro, todos recursos fundamentais para a eletrificação global.
Os especialistas reunidos em Paris defenderam a necessidade de expandir a capacidade de refino e processamento na própria América Latina, garantindo que os países produtores não apenas extraiam os minerais, mas também desenvolvam infraestrutura industrial para transformá-los em insumos prontos para as cadeias globais de energia limpa. Isso permitiria a geração de empregos altamente qualificados, atração de investimentos estrangeiros e maior competitividade internacional.
A IEA destacou em sua análise que o aumento dos investimentos no setor mineral poderia desbloquear um valor econômico inédito para a América Latina. Esse tema será abordado em profundidade na próxima edição do Global Critical Mineral Outlook, relatório anual da agência que será lançado em maio. Além disso, os minerais críticos estarão no centro das discussões da Cúpula Internacional sobre o Futuro da Segurança Energética, que ocorrerá nos dias 24 e 25 de abril em Londres, em parceria entre a AIE e o Governo do Reino Unido.
Sustentabilidade e governança: desafios para o avanço do setor
Apesar do imenso potencial econômico, os líderes presentes na reunião reforçaram a necessidade de garantir que a expansão da mineração ocorra de maneira ambientalmente responsável e socialmente inclusiva. Historicamente, a extração mineral na América Latina tem sido marcada por conflitos socioambientais, com impactos sobre populações locais, recursos hídricos e biodiversidade.
Nesse sentido, os participantes destacaram a importância do engajamento comunitário e da adoção de práticas sustentáveis para que o desenvolvimento do setor beneficie tanto os investidores quanto as comunidades que vivem próximas às áreas de extração. Modelos de mineração com baixo impacto ambiental, utilização de energia limpa nos processos produtivos e respeito aos direitos das populações indígenas foram citados como princípios fundamentais para o avanço da cadeia produtiva mineral na região.
A governança também é um fator determinante para atrair investimentos internacionais. Regras claras, segurança jurídica e incentivos para a industrialização local são fatores que podem posicionar os países latino-americanos como destinos estratégicos para capital estrangeiro voltado à transição energética.
A geopolítica da mineração e o futuro da América Latina
A corrida pelos minerais críticos já é um dos temas centrais da nova geopolítica energética. Nos últimos anos, grandes economias têm buscado diversificar suas cadeias de suprimentos para reduzir a dependência de fornecedores dominantes, como a China. Isso abre uma janela de oportunidade para que a América Latina se torne um parceiro estratégico no fornecimento global de insumos essenciais.
No entanto, essa posição não virá automaticamente. Será necessário um esforço conjunto entre governos, empresas e organismos internacionais para desenvolver políticas que garantam investimentos na mineração e, principalmente, na industrialização desses recursos.
O encontro promovido pela IEA reforçou que a região tem vantagens únicas, como uma matriz energética predominantemente renovável e uma grande reserva de minerais estratégicos. O desafio agora é transformar esse potencial em uma oportunidade real de crescimento sustentável e de protagonismo no cenário energético global.