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Transição climática pressiona sistema elétrico: outono marca fim da La Niña e eleva risco hidrológico no Brasil

Transição climática pressiona sistema elétrico: outono marca fim da La Niña e eleva risco hidrológico no Brasil

Previsão de chuvas abaixo da média e reservatórios mais baixos acendem alerta para preços de energia, bandeiras tarifárias e gestão do sistema

O início do outono, em 20 de março, inaugura não apenas uma mudança de estação, mas também um novo ciclo de atenção para o setor elétrico brasileiro. A transição do fenômeno La Niña para uma fase neutra, com possibilidade crescente de formação do El Niño, ocorre em um contexto de chuvas abaixo da média e reservatórios pressionados, elevando o nível de risco hidrológico e os custos de operação do sistema.

Com impactos diretos sobre o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), bandeiras tarifárias e despacho térmico, o cenário exige monitoramento constante e respostas estratégicas por parte de agentes e formuladores de política energética.

Chuvas abaixo da média e reservatórios em níveis críticos

As projeções indicam que grande parte das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste deve registrar precipitações inferiores à média histórica ao longo do outono. A situação se agrava diante dos níveis já reduzidos dos reservatórios após o verão.

Um dos principais indicadores, o Sistema Cantareira, operava com cerca de 40% de armazenamento em meados de março, significativamente abaixo dos aproximadamente 60% registrados no mesmo período do ano anterior.

A combinação de menor afluência e reservatórios mais baixos reduz a capacidade de regularização do sistema hidrelétrico, aumentando a dependência de fontes complementares e pressionando os custos de geração.

Transição do ENOS amplia incertezas climáticas

A dinâmica do El Niño-Oscilação Sul (ENOS) será determinante para o comportamento climático nos próximos meses. A expectativa é de enfraquecimento da La Niña e entrada em uma fase neutra, com sinais iniciais de El Niño ainda no fim do outono.

Dados do NOAA Climate Prediction Center indicam probabilidade de cerca de 62% para formação do El Niño entre junho e agosto, subindo para 80% no período entre agosto e dezembro.

Esse movimento pode alterar significativamente o regime de chuvas no país, com tendência de volumes acima da média no Sul a partir de junho, especialmente se houver aquecimento simultâneo do Atlântico Sul.

Sul pode compensar, mas não resolve déficit no Sudeste

A distribuição espacial das chuvas reforça um padrão clássico de eventos de El Niño: maior precipitação no Sul e déficit nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.

“No Rio Grande do Sul a chuva aumentará nos próximos meses, mas a afluência será menos volumosa que no ano passado, nos meses de maio e junho”, explica Maria Clara Sassaki, porta-voz da Tempo OK.

Apesar da melhora no Sul, o impacto positivo sobre o sistema elétrico nacional tende a ser limitado, uma vez que o subsistema Sudeste/Centro-Oeste concentra a maior parte da capacidade de armazenamento e geração hidrelétrica do país.

PLD elevado e risco de bandeiras tarifárias

O cenário hidrológico adverso já vem se refletindo nos preços de energia. Em fevereiro, o Preço de Liquidação das Diferenças atingiu cerca de R$ 418/MWh em todas as regiões, sinalizando um ambiente de maior escassez.

A expectativa para o período seco é de manutenção dessa pressão, com aumento da probabilidade de acionamento de bandeiras tarifárias mais elevadas e maior despacho de usinas térmicas. Para consumidores e agentes de mercado, isso se traduz em aumento de custos, maior volatilidade e necessidade de estratégias de hedge mais robustas.

Renováveis ganham espaço, mas com assimetrias regionais

Mesmo diante do cenário desafiador, fontes renováveis como solar e eólica devem desempenhar papel relevante na mitigação dos impactos, ainda que com variações regionais importantes.

“A energia solar deve ter condições favoráveis, especialmente a partir da segunda metade de abril, na Bahia e no norte de Minas Gerais. Em maio, a irradiância tende a ficar um pouco acima da média nestas áreas, com o deslocamento das chuvas para o Sul; em junho, a irradiação tende a ficar próxima da média histórica, embora haja incertezas” comenta a porta-voz.

Já a geração eólica no Nordeste deve enfrentar um início de outono mais fraco, com recuperação ao longo dos meses seguintes. No Sul, o comportamento será inverso, com potencial de geração mais elevado em junho.

Temperaturas elevadas e impacto na demanda

Além da hidrologia, a temperatura também entra no radar do setor. A previsão indica manutenção de temperaturas acima da média no Sudeste e Centro-Oeste durante boa parte do outono, o que pode sustentar níveis elevados de consumo de energia elétrica.

No Sul, por outro lado, a chegada de ondas de frio mais intensas deve ocorrer apenas na segunda metade da estação, com episódios curtos, porém relevantes.

“As ondas de frio serão fortes e se espalharão por vários estados, porém serão de curta duração. Isso significa que um dia gelado pode ser seguido por dias bem mais quentes”, explica Maria Clara.

Gestão do risco climático se torna prioridade estratégica

O outono de 2026 se desenha como um período de transição não apenas climática, mas também operacional para o setor elétrico. A combinação de chuvas abaixo da média, reservatórios pressionados e incertezas associadas ao ENOS reforça a necessidade de monitoramento contínuo e gestão ativa de riscos.

“Estamos vivendo em um período de incertezas, por isso o monitoramento meteorológico das chuvas e das temperaturas é fundamental para reduzir riscos e minimizar impactos”, conclui a porta-voz da Tempo OK.

Para o setor elétrico, a mensagem é clara: em um ambiente de crescente variabilidade climática, antecipação e inteligência operacional serão determinantes para garantir segurança energética e estabilidade de preços.