Testes com materiais compósitos indicam ganhos em durabilidade, logística e rapidez de instalação frente ao concreto tradicional
Com cerca de 60 milhões de postes em operação no Brasil, a modernização da infraestrutura de distribuição de energia elétrica entra no radar de inovação do setor. Nesse contexto, o Lactec vem conduzindo uma série de ensaios técnicos com postes de polímero reforçado com fibra de vidro (PRFV), uma alternativa que pode transformar o padrão construtivo das redes no país.
Os estudos buscam avaliar segurança, desempenho mecânico, durabilidade e conformidade regulatória desses materiais, com foco no atendimento às exigências normativas e operacionais do setor elétrico brasileiro, sob supervisão da ANEEL.
Materiais compósitos ganham espaço na infraestrutura elétrica
Os postes de PRFV surgem como uma alternativa tecnológica aos tradicionais postes de concreto, com potencial para oferecer maior leveza, resistência e eficiência logística. Para validar essa aplicação, o Lactec tem aprofundado a análise de diferentes composições químicas e estruturais.
Ao analisar as propriedades físico-químicas dos componentes, a doutora Joseane Valente Gulmine pontua as distinções fundamentais entre as fibras estudadas:
“A fibra de vidro tem uma densidade maior, enquanto a de carbono é mais leve, porém apresenta propriedades que não são tão interessantes para essa aplicação, como a flexibilidade”, pontua.
Além da fibra de vidro, os estudos também avaliaram alternativas como fibras de carbono e aramida, com foco em entender o comportamento estrutural e a viabilidade técnica para aplicação em redes de distribuição.
Interface entre materiais define desempenho do poste
Um dos pontos críticos identificados nos testes reside na interação entre os componentes do material compósito. A doutora Joseane Valente Gulmine ressalta que a integridade da estrutura depende de um ajuste preciso entre a fibra e a resina.
“A resina e a fibra precisam ter uma boa interface resina/fibra. Caso contrário, não vai haver a performance esperada. E essa boa interface depende do uso de materiais adequados (fibra adequada para determinada resina, por exemplo) e de parâmetros de processamento adequados”, complementa.
Os ensaios também contemplaram análises de resistência mecânica, comportamento frente à degradação ao longo do tempo e desempenho em condições adversas, como exposição ao fogo e intempéries.
Processo produtivo mais rápido e eficiente
Além das características técnicas, os postes de PRFV apresentam vantagens relevantes no processo produtivo. Enquanto estruturas de concreto podem demandar mais de duas semanas para atingir o ponto ideal de uso, os postes compósitos ficam prontos em um intervalo de um a dois dias.
A fabricação utiliza a técnica de enrolamento filamentar, que garante resistência estrutural e uniformidade às peças. Para Guilherme Cunha, gerente sênior de Tecnologia em Materiais do Lactec, a vantagem competitiva da solução reside na versatilidade do ciclo de vida do produto:
“São mais fáceis de transportar, produzir e instalar. No projeto buscamos analisar se haveria outras combinações de materiais e também de modularidade”, observa.
A leveza e a possibilidade de modularização também favorecem a logística, especialmente em regiões de difícil acesso, um fator crítico para distribuidoras e transmissoras.
Aplicações vão da distribuição a estruturas emergenciais
Os projetos conduzidos pelo Lactec abrangem diferentes aplicações dentro do sistema elétrico. Um dos estudos avaliou postes de 10 a 12 metros para redes de distribuição em 13,8 kV, padrão amplamente utilizado no Brasil.
Outro projeto avançou no desenvolvimento de estruturas modulares para situações emergenciais em linhas de transmissão, com postes de até 30 metros de altura. Foram desenvolvidos protótipos de “superpostes”, que passaram por ensaios mecânicos em ambiente controlado.
A solução visa acelerar o restabelecimento do serviço em ocorrências complexas, como a queda de torres em regiões de difícil acesso. A doutora Joseane Valente Gulmine explica como a modularidade dos novos materiais atua em cenários de contingência:
“Para o caso das estruturas emergenciais, tendo em vista que o poste de PRFV pode ser fabricado em módulos, em um caso de queda de torre em local de difícil acesso, a recomposição pode ser mais ágil até que seja possível a montagem de uma estrutura definitiva”, detalha.
Normatização e qualidade impulsionam adoção no mercado
A consolidação dos postes de PRFV no Brasil passa, necessariamente, pelo atendimento a requisitos técnicos rigorosos. A norma NBR 16989:2021 estabelece critérios de desempenho que incluem resistência a agentes físicos e biológicos, como radiação ultravioleta, umidade, variações térmicas, além de ataques de fungos, insetos e roedores.
Os padrões também exigem características físicas específicas, como superfície uniforme, ausência de fissuras, bolhas ou deformações, e integridade estrutural ao longo da vida útil. Com o avanço da tecnologia, o mercado já começa a reconhecer o potencial dos postes compósitos. Fabricantes têm buscado o suporte técnico do Lactec para validação independente de seus produtos e adequação às normas.
“Por se tratar de uma tecnologia relativamente nova para o setor elétrico, é essencial que todos os fabricantes sigam processos adequados, sem pular etapas, para poder oferecer ao mercado um produto com qualidade. Nossos serviços tecnológicos e consultorias visam incentivar o cumprimento dos requisitos de qualidade previstos em norma”, ressalta Guilherme Cunha.
Inovação na base da rede elétrica
A introdução de postes em PRFV sinaliza uma mudança estrutural relevante na base física do sistema elétrico brasileiro. Com ganhos potenciais em durabilidade, eficiência operacional e resiliência, a tecnologia pode contribuir para reduzir custos de manutenção, melhorar a confiabilidade da rede e acelerar a recomposição em eventos extremos.
À medida que o setor avança em direção à digitalização, descentralização e maior exposição a eventos climáticos, soluções inovadoras como essa tendem a ganhar protagonismo, reposicionando a infraestrutura de distribuição como um elemento estratégico da transição energética.



