Entidade defende medidas estruturais para fortalecer a segurança energética do país, incluindo expansão da oferta de gás natural, redução da reinjeção em campos nacionais e avanço em novos projetos exploratórios
A instabilidade geopolítica em regiões estratégicas para o mercado global de energia voltou a acender o alerta sobre a vulnerabilidade do suprimento de gás natural. Para especialistas do setor, conflitos armados no Oriente Médio, área fundamental para a oferta e formação de preços do gás no mercado internacional, reforçam a necessidade de o Brasil fortalecer sua própria capacidade de produção e distribuição do insumo energético.
Diante desse cenário, a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás) defende que o país acelere investimentos voltados à ampliação da oferta de gás natural nacional, além de avançar em medidas regulatórias e estruturais capazes de reduzir a dependência de fatores externos.
A entidade destaca que o mercado global de gás é altamente sensível a crises geopolíticas, um comportamento observado de forma clara durante a Guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, que provocou forte volatilidade nos preços internacionais da energia e alterou fluxos de abastecimento em diversos países.
Nesse contexto, a avaliação do setor é que o Brasil precisa adotar estratégias capazes de garantir segurança energética, previsibilidade de preços e competitividade industrial, ao mesmo tempo em que aproveita oportunidades para expandir sua própria produção.
Segurança energética exige expansão da oferta de gás nacional
A principal recomendação apresentada pela Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado é a ampliação da produção e da disponibilidade de gás natural no país. O entendimento da entidade é que o fortalecimento da oferta doméstica reduz a exposição do mercado brasileiro às oscilações internacionais e cria condições mais estáveis para o desenvolvimento econômico.
Entre as iniciativas consideradas prioritárias está a aceleração de mecanismos voltados à abertura e à diversificação do mercado de gás, como o programa Gas Release, discutido no âmbito do Ministério de Minas e Energia.
A medida busca ampliar o número de agentes no mercado de suprimento, criando maior competição e contribuindo para reduzir custos ao consumidor final, especialmente para setores industriais intensivos em energia.
Reinjeção elevada limita aproveitamento do gás produzido
Outro ponto crítico destacado pela entidade é o elevado volume de reinjeção de gás natural nos campos de produção brasileiros.
Dados recentes indicam que, apenas em janeiro, cerca de 107,8 milhões de metros cúbicos por dia foram reinjetados nas áreas de exploração, volume que poderia ser parcialmente direcionado ao mercado consumidor caso houvesse infraestrutura adequada de escoamento e processamento.
A redução desse índice é vista como uma medida estratégica para aumentar a oferta de gás disponível no país sem necessidade imediata de novos projetos exploratórios.
Infraestrutura de escoamento e transporte ainda é gargalo
Além da produção, o avanço do mercado de gás natural no Brasil depende da expansão da infraestrutura logística que conecta os campos produtores aos centros de consumo.
A Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado aponta a necessidade de ampliar investimentos em gasodutos, sistemas de processamento e instalações de escoamento para viabilizar o aproveitamento do gás produzido no território nacional.
A entidade também defende a redução de custos associados ao transporte e ao acesso às estruturas logísticas do setor, incluindo os Sistemas Integrados de Escoamento e de Processamento (SIE/SIP), cuja estrutura tarifária vem sendo debatida em estudos conduzidos pelo Ministério de Minas e Energia.
Outro ponto mencionado é a revisão das tarifas de transporte, evitando a chamada dupla remuneração de ativos já amortizados, medida considerada importante para tornar o gás natural mais competitivo no mercado energético brasileiro.
Estímulo à demanda pode impulsionar novos investimentos
Para que o setor de gás natural se expanda de forma sustentável, a entidade também destaca a importância de estimular a demanda por esse energético em diferentes segmentos da economia.
Entre os usos considerados estratégicos estão a geração termelétrica, o abastecimento de frotas pesadas e o fornecimento de energia para data centers, infraestrutura cuja demanda energética cresce rapidamente com a digitalização da economia e a expansão da inteligência artificial.
A criação de sinais de consumo consistentes é vista como condição fundamental para viabilizar novos investimentos na produção de gás natural no Brasil.
Novas fronteiras exploratórias entram no radar
A expansão da oferta de gás também passa pela exploração de novas áreas com potencial produtivo. Entre as regiões citadas como estratégicas para o futuro da produção nacional estão a Bacia de Sergipe-Alagoas e a Margem Equatorial, áreas que vêm atraindo interesse crescente da indústria de óleo e gás.
Além dessas fronteiras exploratórias, a entidade também defende a autorização para estudos relacionados ao potencial de gás de xisto no país, desde que sejam respeitados critérios ambientais rigorosos.
A discussão ocorre em um momento em que o Brasil importa volumes relevantes de gás natural provenientes de países onde a produção ocorre justamente por meio do processo de fraturamento hidráulico (fracking).
Gás nacional como pilar da competitividade energética
Para a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado, as tensões geopolíticas recorrentes no cenário internacional reforçam a necessidade de o Brasil investir no fortalecimento de sua própria cadeia de gás natural.
A ampliação da produção doméstica, associada à expansão da infraestrutura e à abertura do mercado, pode contribuir para reduzir vulnerabilidades externas, ampliar a segurança energética e estimular a geração de empregos e renda no país.
Nesse contexto, o desenvolvimento do mercado de gás natural passa a ser visto não apenas como uma questão energética, mas como um componente estratégico para a competitividade da indústria brasileira e a estabilidade do sistema energético nacional.



