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Crise Energética: Como o Desmatamento na Amazônia Está Custando Bilhões ao Setor Elétrico

Perda de chuvas impacta hidrelétricas de Belo Monte e Itaipu, reduz geração de energia e ameaça segurança energética do país

O desmatamento da Amazônia tem um custo muito maior do que o ambiental: ele está afetando diretamente a segurança energética do Brasil e gerando prejuízos bilionários ao setor elétrico. De acordo com um estudo inédito do Climate Policy Initiative/PUC-Rio (CPI/PUC-Rio) e do Amazônia 2030, a destruição da floresta tem reduzido a vazão dos rios que abastecem as hidrelétricas, comprometendo sua capacidade de geração de energia. As duas maiores usinas do país, Itaipu e Belo Monte, perdem anualmente 3,8 mil GWh – energia suficiente para abastecer 1,5 milhão de brasileiros. Esse déficit representa um prejuízo de mais de R$ 1 bilhão em receitas.

A relação entre o desmatamento e a perda energética está no impacto da destruição da floresta sobre os chamados “rios voadores” – correntes de ar carregadas de umidade que garantem chuvas em várias regiões do país. Quando essas massas de ar atravessam áreas devastadas, perdem umidade e reduzem a quantidade de chuvas, afetando diretamente o volume de água nos rios e, consequentemente, a geração hidrelétrica.

O impacto do desmatamento nas hidrelétricas

Itaipu, a maior usina hidrelétrica do Brasil, localizada no Paraná, está a mais de 1.000 km da Amazônia. Ainda assim, a usina sofre uma perda média anual de 1.380 GWh, equivalente ao consumo de 552 mil brasileiros. Esse déficit se traduz em uma redução de R$ 500 milhões na receita da hidrelétrica.

Já Belo Monte, situada dentro do bioma amazônico, enfrenta uma perda ainda maior: 2.400 GWh ao ano, o equivalente ao consumo de 956 mil pessoas. Em termos financeiros, isso representa um prejuízo de R$ 638 milhões anuais.

Juntas, essas usinas são responsáveis por 23% da geração hidráulica da matriz elétrica nacional. No entanto, por serem do tipo fio d’água – ou seja, dependentes do fluxo natural dos rios e do regime de chuvas –, tornam-se extremamente vulneráveis a variações climáticas. O desmatamento desregula esse equilíbrio e amplia os desafios para a manutenção do fornecimento de energia.

O preço da destruição: impactos financeiros e energéticos

A degradação da Amazônia compromete diretamente a viabilidade econômica das hidrelétricas. O estudo identificou que 17% da área mais relevante para o funcionamento de Itaipu já foi desmatada. No caso de Belo Monte, o cenário é ainda mais grave: 27% da floresta na região mais crítica para sua operação já foi destruída.

O valor da conservação da floresta, segundo a pesquisa, é expressivo. Para Itaipu, estima-se que cada quilômetro quadrado da floresta mais relevante para sua geração hidrelétrica tenha um valor de R$ 12.990,6. Para Belo Monte, esse valor salta para R$ 85.395/km².

De acordo com João Arbache, analista do CPI/PUC-Rio, a identificação dessas áreas estratégicas é essencial para nortear políticas públicas eficazes de conservação e restauração. “Proteger a floresta não é apenas uma questão ambiental, mas também energética e econômica. Se não houver investimento na preservação, o país poderá enfrentar uma crise no fornecimento de eletricidade e um aumento expressivo nos custos de produção”, alerta.

Um alerta para o setor elétrico

A hidreletricidade continua sendo a principal fonte de energia do Brasil, representando cerca de 60% da matriz elétrica em 2023. No entanto, se as perdas de geração continuarem nesse ritmo, a capacidade do Sistema Interligado Nacional (SIN) atender à demanda pode ser comprometida.

Para Gustavo Pinto, analista sênior do CPI/PUC-Rio, o setor elétrico precisa atuar ativamente na preservação da Amazônia. “Sem a floresta, a hidreletricidade perde sua viabilidade. É imprescindível que as usinas e o governo invistam em medidas de conservação para evitar uma crise energética e financeira ainda maior”, reforça.

O estudo deixa claro que a degradação ambiental não impacta apenas a biodiversidade da Amazônia, mas afeta toda a estrutura econômica e energética do país. A preservação da floresta deve ser tratada como prioridade estratégica para garantir a segurança elétrica e evitar prejuízos bilionários ao setor.

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