Memorando de Entendimento projeta estado como hub estratégico de processamento e manufatura, com foco em tecnologia e agregação de valor na cadeia mineral
O estado de Goiás deu um passo decisivo para se posicionar na geopolítica global dos minerais estratégicos ao firmar um Memorando de Entendimento (MOU) com o governo dos Estados Unidos. O acordo, assinado nesta quarta-feira (18/3), em São Paulo, estabelece uma agenda de cooperação voltada ao desenvolvimento de cadeias produtivas de alto valor agregado, com foco em terras raras e outros minerais críticos.
A iniciativa é liderada pelo governador Ronaldo Caiado e pelo encarregado de Negócios da Embaixada norte-americana no Brasil, Gabriel Escobar, e marca um movimento estratégico em meio à crescente disputa global por insumos essenciais à transição energética, indústria de alta tecnologia e segurança energética.
“Esse acordo, do ponto de vista geoeconômico, é o mais importante que nós já assinamos em toda a história de Goiás. Um marco na geoeconomia que demonstra a capacidade e a riqueza mineral do nosso estado”, afirmou Caiado.
Cadeia de valor: do minério bruto à manufatura avançada
O memorando estabelece uma diretriz clara: transformar Goiás em um polo industrial completo, superando o modelo tradicional de exportação de matéria-prima. Na avaliação do governador Ronaldo Caiado, o desafio central é internalizar tecnologia e avançar na industrialização dos minerais estratégicos.
“Ao invés de ser apenas um exportador de minério bruto, como Pará e Minas Gerais, estamos pegando as terras raras e evoluindo a tecnologia, que hoje quem tem são os chineses, junto com os japoneses. Uma técnica que os americanos têm e que nós ainda temos numa fase muito rudimentar. Vamos poder avançar e produzir também junto com a universidade, com a área de pesquisa, para podermos ter a separação e a utilização desses minerais que são fundamentais. Desenvolver uma tecnologia que não temos e que é fundamental no mundo em que vivemos”, salientou o governador.
O plano inclui desde a separação química dos elementos até a produção de ligas metálicas e ímãs permanentes de neodímio (NdFeB), componentes essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos e equipamentos eletrônicos.
Estrutura regulatória e ambiente de negócios
Um dos pilares do acordo é a construção de um ambiente regulatório robusto e competitivo, capaz de atrair investimentos internacionais e garantir segurança jurídica. O estado já se antecipou ao debate ao instituir a Lei nº 23.597/2025, que criou instrumentos como as Zonas Especiais de Minerais Críticos (ZEMCs) e o Fundo de Desenvolvimento de Minerais Críticos (FEDMC).
“Goiás soube, em tempo hábil, aprovar uma lei que define a autoridade de minerais críticos. Tudo dentro do ponto de vista legal e constitucional. E a autoridade que assina por este conselho é exatamente o governador do Estado de Goiás”, explicou Caiado.
A política prevê incentivos fiscais, simplificação regulatória e mecanismos de financiamento, condicionados a compromissos de investimento, geração de empregos e transferência tecnológica.
Cooperação técnica e integração internacional
A parceria com os Estados Unidos está estruturada em cinco frentes: mapeamento geológico, desenvolvimento tecnológico, abertura de mercado, fortalecimento regulatório e capacitação institucional. O objetivo é integrar universidades, centros de pesquisa, empresas e governos, criando um ecossistema de inovação capaz de sustentar a industrialização dos minerais críticos no estado.
“O que desejamos é avançar na pesquisa e na ciência, naquilo que trará ao estado a capacidade de ser uma referência geoeconômica. Ter a oportunidade de deslanchar, do ponto de vista da qualidade de vida das pessoas, da renda per capita e sempre tendo em vista a nossa convivência harmônica e de governabilidade com o governo americano”, frisou o governador.
Potencial mineral e projetos em expansão
O protagonismo de Goiás está diretamente ligado à sua base geológica. O estado abriga a única operação comercial de terras raras em atividade no Brasil, localizada em Minaçu, com a mineradora Serra Verde. A produção inclui elementos como disprósio, térbio, neodímio e praseodímio, insumos críticos para a indústria de energia limpa e tecnologia avançada.
Além disso, novos projetos reforçam o potencial de expansão. Em Nova Roma, investimentos estimados em R$ 2,8 bilhões devem impulsionar o processamento de argilas iônicas, enquanto em Iporá há previsão de R$ 550 milhões para prospecção de grandes reservas.
O Brasil, por sua vez, concentra a segunda maior reserva mundial de óxidos de terras raras, com cerca de 22 milhões de toneladas, posicionando-se como player estratégico na reorganização das cadeias globais de suprimento.
Integração geoeconômica e novo papel do Brasil
O acordo entre Goiás e os Estados Unidos ocorre em um momento de reconfiguração das cadeias produtivas globais, impulsionada pela necessidade de diversificação de fornecedores de minerais críticos. Ao avaliar o impacto da parceria, Gabriel Escobar destacou o potencial de aprofundamento das relações bilaterais.
“A relação entre Estados Unidos e Brasil sempre foi boa, mas temos uma parceria com o Estado de Goiás que é muito importante. Ela abrirá ainda mais portas para exploração, desenvolvimento e investimentos”, ressaltou Gabriel Escobar. “É mais cooperação científica e econômica, como destacou o governador. Agradeço não somente pela cooperação, mas também pela visão estratégica”, saudou o representante do governo norte americano.
A iniciativa também foi destacada pelo secretário-geral de Governo, Adriano da Rocha Lima, ao apontar uma mudança estrutural no papel do país.
“Desde a época do descobrimento, o Brasil exporta suas riquezas naturais sem agregação de valor. Pela primeira vez, temos um acordo que permitirá implementar toda a cadeia de valor dos minerais críticos, desde a tecnologia e a pesquisa”, observou Adriano. “No caso das terras raras, poderemos produzir aqui um ímã permanente pronto para uso, abastecendo indústrias de defesa e automotivas no mundo inteiro”.
Fórum reforça protagonismo e atrai investidores
A assinatura do memorando ocorreu paralelamente ao Fórum EUA-Brasil sobre Minerais Críticos, que reuniu representantes de governos, mineradoras, instituições financeiras e órgãos estratégicos norte-americanos.
O evento consolidou Goiás como um dos principais polos emergentes para investimentos em minerais estratégicos, com destaque para níquel, lítio, nióbio e terras raras, insumos essenciais para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia.



