Negativa do ONS para conexão à rede elétrica pode atrasar investimento bilionário e afetar competitividade do país no setor
O Brasil tem sido apontado como um dos grandes protagonistas no desenvolvimento do hidrogênio verde, uma das principais apostas globais para a transição energética. No entanto, a viabilização desse novo mercado no país enfrenta desafios significativos. A Fortescue, empresa australiana de mineração e energia renovável, viu seu ambicioso projeto no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CE) ser afetado por um entrave regulatório que pode comprometer a execução dos planos da companhia.
Com investimento previsto de R$ 20 bilhões e capacidade de 1,2 gigawatt (GW) de eletrólise, a planta da Fortescue encontra-se em fase avançada de engenharia e estruturação de custos. No entanto, um parecer do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) negou o acesso do empreendimento à rede elétrica, essencial para que a unidade receba a energia renovável necessária à produção de hidrogênio verde.
Decisão do ONS gera incertezas e pode afastar investidores
A negativa do ONS não afetou apenas o projeto da Fortescue, mas também outras iniciativas de grande porte no setor de energia, como data centers e outras unidades industriais que demandam alta carga elétrica. Segundo o country manager da Fortescue no Brasil, Luís Viga, a justificativa do ONS é que a rede precisa passar por novos estudos antes de conceder acesso a projetos desse porte.
“Todos os grandes projetos de hidrogênio verde e data centers receberam parecer de acesso negado. O ONS quer realizar mais estudos, o que entendemos, mas precisamos dar respostas rápidas aos investidores, pois essa situação cria um ambiente de insegurança jurídica”, afirmou Viga.
A negativa pode comprometer a decisão final de investimento (FID) da Fortescue, prevista para 2026, caso a questão não seja resolvida nos próximos anos. Como reação imediata, o Ministério de Minas e Energia determinou a elaboração de estudos para ampliar a rede de transmissão em 4 GW, dos quais parte será destinada ao projeto da mineradora.
O principal desafio, no entanto, é antecipar a conclusão dessa expansão, atualmente prevista para 2032, para um prazo mais compatível com a necessidade do mercado, já que a Fortescue precisa dessa conexão até 2029.
“Hoje conseguimos manter o cronograma, mas será necessário agir rápido para evitar atrasos na decisão de investimento”, pontuou Viga.
Brasil pode perder espaço na corrida pelo hidrogênio verde
A planta da Fortescue em Pecém é um dos projetos mais relevantes no portfólio global da empresa, e sua viabilização reforçaria a posição do Brasil como um dos principais exportadores de hidrogênio verde. O país tem grande potencial competitivo, especialmente pela abundância de fontes renováveis de energia, como solar e eólica.
No entanto, a falta de infraestrutura de transmissão pode comprometer essa vantagem e afastar investimentos futuros no setor. Como o hidrogênio verde é um grande consumidor de eletricidade, a ampliação do sistema elétrico nacional será necessária – o que pode elevar os custos para todos os consumidores de energia no Brasil.
Diante desse cenário, Viga sugere que o país adote modelos de garantias bancárias para assegurar o comprometimento dos investidores, uma prática já utilizada na Europa. Essa medida permitiria que apenas empresas realmente interessadas em seguir com seus projetos avancem no processo, evitando que a sobrecarga da rede elétrica seja atribuída a empreendimentos que podem não sair do papel.
Negociações com consumidores já estão avançadas
Apesar do impasse regulatório, a Fortescue segue avançando na estruturação financeira do projeto. A companhia já contratou quatro grandes empresas de engenharia para finalizar os estudos de custos até meados de 2025, permitindo que a mineradora inicie negociações com potenciais compradores do hidrogênio verde brasileiro.
“Estamos na fase de fechamento dos custos. Com isso definido, vamos ao mercado falar com os ‘offtakers’ e discutir contratos firmes”, explicou Viga.
A resolução da questão energética será determinante para a tomada de decisão da Fortescue. Caso o Brasil não consiga oferecer condições adequadas de infraestrutura e previsibilidade regulatória, o país pode perder um investimento bilionário e, mais do que isso, ficar para trás na corrida mundial pelo hidrogênio verde.
O setor aguarda os próximos passos do governo e do ONS, enquanto a Fortescue segue pressionando por soluções que viabilizem o projeto dentro do prazo necessário. A competitividade do Brasil nesse novo mercado dependerá diretamente da agilidade com que essas questões forem resolvidas.