Especialistas apontam que garimpo ilegal, tráfico de armas e grilagem de terras estão cada vez mais interligados, tornando a preservação da floresta um desafio ainda maior
A presença do crime organizado na Amazônia transformou a dinâmica da conservação da maior floresta tropical do planeta. A relação entre grilagem de terras, garimpo ilegal e tráfico de drogas e armas intensificou a destruição ambiental, ampliando a degradação da floresta e colocando populações tradicionais em risco. O alerta foi feito pelo pesquisador Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), durante o webinar “Emergência Climática: Tribunais de Contas e Indução das Políticas Públicas Ambientais”, promovido pela Associação dos Tribunais de Contas, Instituto Rui Barbosa e Tribunal de Contas do Amazonas.
“Se não houver um combate efetivo, teremos vastas áreas da Amazônia dominadas pelo crime organizado. Esses três pilares – grilagem, garimpo e tráfico – precisam ser o foco das agências de controle do Brasil”, afirmou Moutinho.
A Floresta Amazônica estoca mais de 100 bilhões de toneladas de carbono, o equivalente a uma década de emissões globais. No entanto, a expansão de atividades ilegais como desmatamento, mineração clandestina e extração ilegal de madeira ameaça o equilíbrio climático e a biodiversidade da região.
Mudanças climáticas e risco de colapso ecológico
Outro alerta veio do climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas brasileiros em mudanças climáticas. Ele destacou que, caso o atual ritmo de destruição da Amazônia continue, o planeta pode enfrentar um aumento de 2,5°C na temperatura global até 2050, ultrapassando a meta estabelecida na COP-26 de Glasgow para conter o aquecimento abaixo de 1,5°C.
“Se a temperatura subir acima de 2°C, a Amazônia pode perder até 70% de sua floresta, resultando na maior extinção em massa de biodiversidade já registrada e no surgimento de novas doenças”, alertou Nobre.
A degradação da floresta também compromete a segurança alimentar, o abastecimento hídrico e a produção agrícola, impactando diretamente a economia brasileira e global.
O papel das florestas públicas não destinadas no desmatamento
Um dos principais alvos da grilagem na Amazônia são as chamadas florestas públicas não destinadas – terras de domínio federal ou estadual que ainda aguardam definição para sua destinação oficial. Essas áreas somam 56,6 milhões de hectares, o equivalente ao território da Espanha.
Segundo um levantamento do IPAM, entre 2019 e 2021, 51% do desmatamento na Amazônia ocorreu em terras públicas, sendo que as florestas não destinadas foram as mais impactadas. O desmate nessas áreas cresceu 85% nesse período, passando de 1.743 km² para 3.228 km² anuais, com maior concentração no sul do Amazonas e no oeste do Pará.
Moutinho comparou a destruição dessas áreas à perda de patrimônios históricos. “Metade do desmatamento da Amazônia ocorre em terras públicas, que pertencem ao povo brasileiro. É como demolir um monumento histórico. Precisamos destinar essas florestas para conservação ou uso sustentável antes que sejam completamente ocupadas pelo crime organizado”, enfatizou.
Desmatamento legal também preocupa
Embora grande parte do desmatamento seja ilegal, o desmate autorizado por lei também representa uma ameaça significativa. O Código Florestal Brasileiro permite que até 20% das propriedades rurais na Amazônia sejam desmatadas legalmente, o que pode comprometer 20 milhões de hectares de floresta.
Para evitar essa degradação, Moutinho defende a criação de mecanismos de compensação para que produtores mantenham suas áreas preservadas sem prejuízo econômico. Um desses mecanismos é o Conserv, um programa financeiro voluntário que remunera produtores rurais pela conservação da vegetação nativa que poderia ser desmatada legalmente.
Atualmente, o Conserv já evitou a emissão de 2,2 milhões de toneladas de CO₂, protegendo 20 mil hectares de floresta em 23 propriedades. “Precisamos investir mais nesse tipo de iniciativa, além de fortalecer a agricultura sustentável para produzir mais em menos espaço”, ressaltou Moutinho.
Monitoramento e combate ao crime ambiental
O papel do Judiciário e dos órgãos de fiscalização foi destacado no evento como essencial para conter a destruição da Amazônia. A rastreabilidade de recursos, o endurecimento de punições para crimes ambientais e o monitoramento de movimentações financeiras ligadas ao desmatamento ilegal são algumas das estratégias apontadas para conter o avanço da degradação.
Com a floresta sob pressão e o crime organizado ganhando território, especialistas reforçam que o combate ao desmatamento precisa ser encarado como uma prioridade nacional, envolvendo esforços coordenados entre governo, sociedade civil e setor produtivo.